Michael Weikath leva o Brasil na memória e no coração

Guitarrista e fundador da banda pioneira do power metal alemão fala sobre o álbum que marca a volta de Michael Kiske e Kai Hansen, a amizade com Andre Matos e a primeira vinda do grupo ao Brasil, há 25 anos, na edição de 1996 do festival Monsters of Rock.

Rock Brigade: Nem nos nossos sonhos mais loucos poderíamos imaginar que o Helloween se tornaria um septeto com direito a três vocalistas e três guitarristas. De dentro da banda você consegue dimensionar o impacto dessa reunião para o heavy metal como um todo e, especialmente, para o power metal?
Michael Weikath: Pude ter uma noção disso quando fomos headliners do Wacken [em 2018] e quando tocamos no Rock in Rio [em 2019]. As imagens falam por si. Acho que foram duas de nossas maiores conquistas, conquistas para o power metal. [Mas para mim,] o power metal é um movimento, uma espécie de religião, só que de uma maneira positiva, sem restrições ou julgamentos. E todas as bandas, sejam elas novas ou antigas, são extremamente importantes para o todo.

Sinergia, energia e criatividade são os ingredientes listados no press release na receita vencedora do novo álbum. Mas que outros aspectos, individuais ou coletivos, você listaria como fundamentais para o Helloween?
Eu diria que o comprometimento que toma conta sempre que paramos para compor e gravar, fazer as demos e investir em equipamentos. Nós nos reunimos em abril de 2019 num hotel em Hamburgo onde mostramos nossas composições uns para os outros. O resultado final deve-se muito às mãos de Charlie Bauerfeind, nosso produtor desde [o álbum] The Dark Ride (2000), e Dennis Ward, do Pink Cream 69, Unisonic e Place Vendome, nosso coprodutor. A bateria foi toda gravada em analógico e os demais instrumentos em digital. Então Charlie e Dennis converteram tudo em analógico e realizaram três ou quatro tentativas de mixagem antes de batermos o martelo.

Rolou uma emoção em estúdio? Parafraseando a letra da clássica Halloween, a magia estava no ar?
A magia sempre está no ar quando fazemos algo juntos, e isso é bom, porque permite que bons resultados sejam obtidos de maneira leve e divertida. Fizemos dois meses de pré-produção em novembro e dezembro de 2019 e aproveitamos esse tempo para definir os últimos arranjos e também para começarmos a pensar na capa.

“Não teve um dia que eu não saísse do estúdio com um zumbido no ouvido, pois eram muitas coisas a se considerar. Mas foi legal demais, temos um entrosamento muito bacana, somos uma família.”

De quem partiu a ideia de gravar o álbum usando a bateria do Ingo [Schwichtenberg, baterista original do Helloween, morto em 1995]?
É provável que tenha sido o ex-colega de quarto dele, que possuía a chave do depósito onde a bateria estava guardada. É o mesmo kit que o Ingo usou no [álbum] Keeper of the Seven Keys: Part II [1988].

Seria essa a forma encontrada de incluí-lo nas comemorações?
Sim, mas também fizemos pelo Dani [Löble], que aprendeu a tocar ouvindo e estudando o estilo do Ingo sem fazer ideia de que um dia se tornaria ele próprio o baterista do Helloween.

Depois de ouvir o álbum completo, fiquei me perguntando por que vocês decidiram lançar um épico de 12 minutos como primeiro single. Você não concorda que há músicas que representem melhor o clima geral do álbum do que Skyfall?
Foi uma decisão conjunta entre gravadora, banda e empresários. A gravadora sugeriu Out for the Glory, mas o Kai [Hansen] já havia desenvolvido o conceito para o videoclipe [de Skyfall]. Quanto a representar o clima geral do álbum, muitas pessoas acham que Skyfall cumpre bem esse papel devido às inúmeras partes, quebras de tempo e tudo o mais que remete aos anos 1980.

Out for the Glory é justamente uma das três músicas que você compôs para o álbum e funciona muitíssimo bem como faixa de abertura, inclusive para shows. Você tinha isso em mente quando a compôs?
Tive a ideia para a melodia do refrão há quinze anos após assistir ao filme Uma Verdade Inconveniente [2006]. A partir do título [An Inconvenient Truth] desenvolvi a melodia. Depois mudei a letra para Out for the Glory, mas levei quinze anos até conseguir encaixar todas as partes. Existe uma demo da época do [álbum] 7 Sinners [2010], mas nem se compara. Não a compus pensando numa música para abrir shows. Chegou uma hora em que eu só queria terminá-la, afinal, já haviam se passado 15 anos!

A segunda das suas composições é Robot King. Você poderia explicar a ideia por trás da letra?
A letra fala sobre transumanismo. É sobre um cara que acorda num hospital e somente aí se dá conta de que virou um androide. Então ele começa uma saga em busca de seus semelhantes e descobre que há centenas iguais a ele. No fim das contas, em pleno Central Park, em Nova York, eles assumem o controle da humanidade, conectando-se à Internet e, por meio dela, derrubando regimes e governos, promovendo uma reestruturação geral do planeta. Uma viagem, eu sei. O tipo de coisa que jamais seria possível! [risos]

Robot King e Down in the Dumps, sua terceira composição, são justamente as músicas que mais exigem da voz de Michael Kiske em todo o álbum. Foi intencional ou mera coincidência?
Na verdade, o meu objetivo era criar momentos como Child in Time do Deep Purple e Exciter do Judas Priest, duas músicas que são o mais perfeito exemplo de vocais de heavy metal. Temos três fantásticos vocalistas, então esse álbum era a oportunidade perfeita para explorar isso. Michael é um cara que brinca com a voz. Não exigi dele nada que ele não fosse capaz de entregar. O mesmo vale para o Kai e o Andi [Deris].

A letra de Angels termina com a frase “I had a dream about forgiveness” [“Eu tive um sonho sobre o perdão”]. Quanto de perdão foi necessário de você e do Michael para que ele voltasse a ser benquisto pelo Helloween?
Todo o perdão do mundo e também a ação do tempo para que quaisquer erros que ambos tenhamos cometido no passado fossem deixados para lá. Michael e eu éramos melhores amigos, fazíamos piada o tempo todo, mas a relação azedou meio que da noite para o dia. Lamento muito todo o mal que fizemos um ao outro. Tínhamos egos do tamanho do mundo e não havia ninguém para nos trazer de volta à razão na época. Foi necessário que nos afastássemos e amadurecêssemos. Hoje posso dizer que estou feliz e espero que esse clima bom seja eterno enquanto dure.

“Não desejo a ninguém o que Michael e eu passamos, mas felizmente conseguimos encontrar uma saída, mesmo que tantos anos depois, o que, por si só, já é uma coisa e tanto.”

Sendo assim, pode-se dizer que Best Time e Indestructible têm um caráter autobiográfico?
Acredito que sim. Dar às coisas a importância que elas têm é uma ótima maneira de viver a vida.

Este ano marca o 25º aniversário do álbum Time of the Oath e também o 25º aniversário da primeira vinda do Helloween ao Brasil, quando vocês tocaram no festival Monsters of Rock. Sei que já faz um tempão, mas o que você lembra daquele dia e quais das suas primeiras impressões do Brasil se mantêm até hoje?
Lembro que nossos figurinos de palco foram esquecidos no aeroporto, então nós tivemos que tocar usando nossas roupas casuais! Felizmente tínhamos nossas guitarras e outros equipamentos, mas nada de figurinos. No dia eu estava com conjuntivite, então tive que tocar usando óculos escuros. Nada contra eles, mas são horríveis para se fazer shows. Fiquei me sentindo um idiota. Mas se não fosse por eles, eu estaria ferrado. Ficamos muito surpresos com a recepção calorosa que tivemos no festival. Embora tenham nos dito o quanto éramos queridos na América do Sul, nenhum de nós poderia imaginar tamanho carinho. Se com Deris, Roland [Grapow] e Uli [Kusch] já fomos recebidos assim, fico imaginando se tivéssemos ido ao Brasil com a formação original. Posso dizer sem pestanejar que foi uma das nossas maiores experiências enquanto banda e agradeço demais a cada uma das pessoas que estava lá!

Fazem dois anos que o incrível Andre Matos nos deixou. Você poderia comentar brevemente sobre ele?
Ele era um cara muito sensível, inteligente e cordial, além de muito talentoso. Tivemos lá nossas diferenças. Ele era empresariado por um ex-empresário nosso que ajudou a fazer a nossa caveira e levou o Andre a pensar que éramos uns filhos da puta e a falar meia dúzia de abobrinhas sobre o Helloween por aí. Ele provavelmente pensava que nós éramos os típicos astros do rock metidos a besta, que só estavam nessa pela grana, até o dia em que nos conhecemos pessoalmente nos escritórios da [gravadora] Century Media na Inglaterra. Tivemos uma conversa muito franca na qual ele me pediu desculpas por tudo que havia dito. A partir daí, viramos amigos, de vez em quando trocávamos mensagens, nos interessávamos um pelo outro, mas ele vivia ocupado. Mantivemos contato até o dia em que ouvi aquela triste notícia… Mas o mais curioso em relação ao Andre é que ele era a cara do vocalista da minha antiga banda Powerfool. Pareciam gêmeos!

Para encerrarmos, qual é o seu recado para os fãs do Helloween no Brasil e leitores da Rock Brigade?
Fomos massacrados quando dissemos que íamos gravar um DVD no Brasil, mas os fãs brasileiros calaram a boca do resto do mundo quando lançamos o United Alive [2019] e todos puderam ver que aí o buraco é mais embaixo! Espero que vocês gostem deste novo trabalho do qual muito nos orgulhamos! Espero que essas músicas falem ao coração de todos vocês e que logo, logo estejamos todos juntos, nos divertindo como deve ser!

(por Marcelo Vieira, transcrição de Leonardo Bondioli)

Fotos: Divulgação