Review do Metallica em Porto Alegre: burocrático, mas fantástico

Se você é um fã ‘die hard’ da banda, ou se foi o seu primeiro show do quarteto americano, certamente você fica com o segundo adjetivo. Mas se você foi escalado para analisar e resenhar como foi o evento, no geral, e você consegue se ‘despir’ da condição de fã da banda, talvez você consiga perceber os dois. 

No caso deste que vos escreve, foi muito difícil perceber, analisar todos os fatos e tecer uma opinião sincera a respeito dessa terceira passagem pela capital gaúcha do gigante do thrash metal mundial. Afinal, estamos falando do Metallica, banda que habita este coração desde que os ouvi pela primeira vez, lá nos distantes anos 198, que criaram pérolas como os álbuns Kill ’em All, Ride the Lightning e Master of Puppets e influenciaram boa parte do que sou como músico e também como pessoa. Mas vamos aos fatos. 

Em primeiro lugar, não há como analisar o evento sem falar nas péssimas condições do local escolhido, o estacionamento da FIERGS. A começar pelo acesso, sem rotas alternativas, o que gerou um monstruoso congestionamento e fez com que boa parte do público (inclusive este que vos escreve) perdesse a primeira banda da noite, a Ego Kill Talent. Muitos também não conseguiram chegar a tempo de conferir o Greta Van Fleet, e alguns perderam a primeira parte do show dos donos da noite. 

Os problemas também passaram pela estrutura interna, onde detectamos lotação na área destinada às pessoas com dificuldades físicas e seus acompanhantes, muitas filas e até pessoas que, na procura por um melhor lugar, assistiram o evento de cima de banheiros químicos. Sem falar no final caótico, onde cerca de 40 mil pessoas (público informado pela assessoria) tinham que deixar o local, o que acarretou em mais confusão, engarrafamento absurdo, falta de sinal de internet e muito cansaço, estresse e horas de espera para chegarem ao seu destino.

Sobre os shows, como já dissemos, infelizmente não chegamos a tempo de conferir a brasileira Ego Kill Talent. Sobre a Greta Van Fleet, é uma bela banda, com músicas e arranjos de muito bom gosto, e seu vocalista, o jovem Josh Kiszka tem uma voz com um alcance fora do comum. Mas ficou a impressão de que o quarteto, que também conta com o irmão gêmeo de Josh, Jake Kiszka na guitarra, o irmão mais novo dos dois, Sam Kiszka no baixo e o baterista Daniel Wagner, ainda carece de experiência de palco, principalmente em shows em países que não têm o inglês como língua oficial, pois a comunicação entre banda e público praticamente não existiu, fazendo com que o show dos americanos soasse morno. 

Morna e burocrática também nos pareceu a apresentação do Metallica. Apesar de que, qualquer show desses gigantes vale muito a pena ser conferido. Pontos positivos? Claro que tiveram, e talvez o que mais nos chamou a atenção tenha sido o setlist, que foi diferente (pra melhor) daquele que tínhamos como informação prévia, o que de uma certa forma nos surpreendeu positivamente e nos fez ‘bater cabeça’ em algumas músicas. 

A pirotecnia, os raios laser e os grandes telões também funcionaram muito bem (apesar de ter ficado um gostinho de injustiça e decepção por só termos sido brindados com 3 telões, enquanto em toda a tour o palco tem 5 telões). Mas só isso é muito pouco para uma banda que detém o título de gigante entregar para o seu público, que em sua maioria fez um grande esforço para estar ali, seja financeiro, físico e até de paciência, primeiro por esperar todo o tempo da pandemia, e depois para conseguir chegar ao maldito estacionamento da FIERGS. 

Mesmo assim, o show do Metallica sempre vale a pena ser conferido. Então, tirando o público gourmet, que só vai gritar histericamente nas explosões e fogos e pular durante a última música, que invariavelmente é Enter Sandman, todo o verdadeiro fã do quarteto já se emociona ao ouvir nos falantes o clássico do AC/DC It’s a long way to the top (… If you wanna Rock n Roll) que tem precedido a entrada do Metallica no palco nos últimos tempos. E quando começa a clássica introdução feita com a consagrada composição Ecstasy of Gold, de Ennio Morricone, o frenesi interno em cada um de nós, aumenta. E já a primeira trinca de músicas, emociona. 

Whiplash, Ride the Lightning e (a primeira surpresa da noite) Harvester of Sorrow deixa boa parte do público paralisado. E seguem com Seek and Destroy, No Remorse (com um arranjo diferente no final, incorporado em meados de 2018 e só agora conferido ao vivo por nós… Ah, como é gratificante ver uma grande banda se reinventando!), One (com a primeira onda de pirotecnia, explosões, fogos e lasers) e Sad but True. 

Moth Into Flame é uma da fase mais atual que não deixa o nível cair. Na sequência, pra finalizar o ‘tempo regulamentar’, Unforgiven (linda e necessária), For Whom The Bell Tolls (maravilhosa), Fuel (fez a sua parte muito bem), a magnífica Welcome Home (Sanitarium) e a clássica Master of Puppets. Nesse momento, mais uma vez ficamos com a sensação de falta de comunicação entre a banda e seu público, pois saíram do palco sem que boa parte dos presentes percebesse que o show estava se encerrando. 

Enfim, voltam e (nos) acertam em cheio com a pancadaria de Blackened (dane-se o pescoço). Finalizam com dois dos seus maiores clássicos, ambos do álbum que os colocou em um outro patamar (o famoso Black Album), Nothing Else Matters (cantada por todos) e Enter Sandman (‘pulada’ por todos). 

Enfim, mais um show do Metallica na vida de todos nós. E como foi dito no início desse texto, para muitos, os verdadeiros fãs, foi mais uma noite fantástica. E para aqueles que não têm o Metallica como banda do coração, foi mais um show burocrático do quarteto. E desde já, estamos aguardando para que cumpram a promessa final de não demorarem tanto tempo para que voltem à capital gaúcha, pois lá estaremos para conferir.

(Texto: Flávio Soares / Fotos: Zé Carlos de Andrade)