Entrevista: Martín Méndez antecipa retorno do Opeth ao Brasil
O Opeth será uma das atrações do festival Monsters of Rock 2025, que acontece no dia 19 de abril, no Allianz Parque, em São Paulo. Com mais de três décadas de estrada, a banda sueca retorna ao Brasil trazendo na bagagem seu novo disco — “The Last Will and Testament” (2024) — e um repertório que celebra todas as fases de sua carreira.
Às vésperas do show, a Rock Brigade conversou com o baixista Martín Méndez, que falou sobre o novo álbum, os clássicos do passado e momentos marcantes — e difíceis — da trajetória do grupo.
Rock Brigade: A arte do novo disco me lembrou muito a cena final de “O Iluminado”, do Stephen King. Você vê alguma influência dele em outros momentos da história do Opeth?
Martín Méndez: A arte tem algumas influências, talvez, mas a ideia principal era retratar um retrato antigo de família, de uma família rica. O patriarca está no centro da imagem, entregando o testamento para os outros. Queríamos uma foto no estilo daquelas tiradas antigamente, em que todo mundo aparece com o rosto sério, sem expressão, por causa do tempo que a câmera levava pra registrar. Essa é a ideia por trás.
O novo disco marca a volta dos vocais guturais. Como foi a reação da banda quando souberam que eles estariam de volta?
A gente conversou sobre isso antes de começar a compor. Já tínhamos essa ideia. Mas, claro, queríamos testar pra ver se funcionava. Quando o Mikael mandou a primeira música com os guturais, todos perceberam que funcionava muito bem. Ficamos felizes de voltar a tocar algo mais pesado.
As músicas do novo álbum não têm títulos tradicionais. Elas aparecem como “parágrafo 1”, “parágrafo 2”… Isso gerou alguma confusão entre os fãs?
Sim, é diferente, e a gente gosta de fazer algo diferente. A ideia é que o álbum seja como um testamento. Se você olhar o encarte com as letras, vai parecer um documento oficial. Por isso usamos o símbolo § e os parágrafos numerados. Tentamos fazer algo que parecesse um testamento real. No começo, algumas pessoas ficaram confusas, mas… bom, isso é Opeth. É pra confundir um pouco mesmo.
Já que você está com o baixo aí, qual linha de baixo do novo álbum é a sua favorita?
Difícil escolher uma só. Gosto muito desse disco. Mas, por exemplo, gosto muito de tocar o “parágrafo 3”, que é bem groovy. Já no “parágrafo 5” tem partes mais técnicas. Eu curto tanto tocar coisas suaves quanto técnicas ou pesadas. O disco tem uma boa mistura disso tudo.
E quanto aos discos antigos? Você tem alguma linha de baixo que sempre fica esperando pra tocar nos shows?
Não sei se tenho uma favorita, mas tem várias. Gosto de tocar músicas antigas, como “Deliverance”, que tocamos em quase todo show. Ainda gosto dela. É difícil escolher só uma. Mas linhas como “The Drapery Falls” são sempre agradáveis de tocar.
Estamos comemorando 20 anos de “Ghost Reveries”. Queria saber sua opinião sobre o disco. E se você conhece aquele meme: “Quer assustar alguém? Coloca ‘Ghost of Perdition’ e espera os seis primeiros segundos”.
(Risos) Não conhecia esse meme. Mas eu adoro esse disco. Foi um álbum muito importante pra banda. Tem músicas muito boas, como “Ghost of Perdition”, que ainda tocamos bastante. Acho que é uma das favoritas dos nossos fãs. Também gosto muito de “The Baying of the Hounds”. Tocávamos ela antigamente, faz tempo. E “Isolation Years”, a última música, é muito bonita. Foi o primeiro álbum que fizemos com o produtor Jens Bogren. Só tenho boas memórias desse trabalho.
Sempre que se fala na produção do Opeth, o nome do Steven Wilson aparece. De que forma você acha que ele influenciou o som da banda? Você acha que existe um “antes e depois” do Steven Wilson?
Boa pergunta. Ele fez um ótimo trabalho com a gente, claro. Mas acho que ele atuou mais como produtor e engenheiro de mixagem. Ele ajudava o Mikael [Åkerfeldt, vocalista e guitarrista] com os vocais, produzia as vozes, algo assim. Mas a música em si já estava pronta. Lembro que, na primeira vez que trabalhamos com ele — em “Blackwater Park” (2001) —, ele chegou praticamente no fim, na hora de gravar as vozes. Então, ele não teve tanta influência no processo musical. Mas sim, ele fez ótimas mixagens com a gente. Acho que esse foi o principal papel dele.
Você é um dos membros mais antigos da banda, mas entrou no quarto disco. Dos três primeiros, tem algum que você goste mais?
Ouvi Opeth pela primeira vez quando ainda morava no Uruguai. Quando cheguei à Suécia, em 1996, tinha 17 anos e já era fã da banda. Eles tinham acabado de lançar “Morningrise”. Esse era o meu favorito.
Entrei na banda uma semana antes das gravações de “My Arms, Your Hearse” (1998), mas como não deu tempo de ensaiar, o Mikael gravou o baixo. Então tecnicamente eu já estava na banda, só não gravei o álbum. Fiz os shows depois.
Gostei muito quando esse disco saiu, porque era diferente. “My Arms, Your Hearse” é mais agressivo comparado a “Morningrise” e “Orchid” (1995). O som era mais cru, mais voltado ao black metal talvez, mais pesado. Eu era jovem, estava muito ligado ao metal extremo, então foi um passo importante pra mim.
Mas ainda amo “Morningrise”, até hoje. Musicalmente, era muito interessante e diferente. Eu já tocava outros estilos, gostava de metal, mas tinha interesse por várias coisas. O Opeth era a banda perfeita pra mim, porque misturava todos esses estilos dentro do metal. Então esses dois álbuns são muito especiais pra mim.
Queria falar agora sobre o “Damnation” (2003), que é um disco bem diferente, só com baladas. Como foi a reação da banda ao saber que o álbum teria apenas esse tipo de som? E qual sua faixa favorita?
A ideia original era lançar “Deliverance” (2002) e “Damnation” ao mesmo tempo, como um projeto duplo. Um disco pesado e outro calmo, só com baladas. Mas a gravadora achou melhor dividir em dois álbuns, e acabamos concordando.
Acho que “Damnation” é um dos discos favoritos dos nossos fãs. Todo mundo fala dos guturais e do som pesado, mas “Damnation” é muito querido. Quando tocamos ao vivo, sentimos isso. Minhas faixas favoritas são “Windowpane” e “In My Time of Need”. É um disco lindo, e tenho orgulho de termos feito isso naquela fase mais pesada da banda. Foi uma boa decisão.
O Opeth tem uma carreira longa e sólida. Mas se você tivesse que escolher um momento mais difícil da banda, qual seria? E como vocês superaram?
Tivemos muitos momentos difíceis, mas acho que a época de “Deliverance” e “Damnation” foi especialmente delicada. A banda estava num momento frágil. Não posso entrar em muitos detalhes, mas foi bem complicado.
Além dos problemas internos, tivemos que mudar de estúdio no meio das gravações. O dono do primeiro estúdio sumia, passava o dia no bar, aparecia bêbado com amigos… e a gente trabalhando. Não dava. Tivemos que parar tudo, mudar de lugar, desmontar equipamentos… foi um pesadelo.
Mas conseguimos terminar as gravações no segundo estúdio e fazer uma boa mixagem. Foi o período mais difícil da banda, sem dúvida.
Texto: Gustavo Maiato

