Monsters of Rock Brasil 2025: review e galeria de fotos
19/4/2025
Allianz Parque, São Paulo-SP
Monsters of Rock Brasil 2025: review e galeria de fotos
Originário do Reino Unido nos anos 1980, o Monsters of Rock conquistou versões em diversos países, e o Brasil se firmou como um dos palcos mais importantes para o festival dedicado principalmente ao hard rock e ao heavy metal.
A estreia brasileira aconteceu em 27 de agosto de 1994, no Estádio do Pacaembu, em São Paulo. A edição histórica contou com shows do Kiss — cuja apresentação foi incluída em um disco bônus da caixa “Kissology Volume 3: 1992–2000” (2007) —, Slayer, Black Sabbath — com Bill Ward substituindo Bobby Rondinelli na bateria —, além de Suicidal Tendencies, Viper, Raimundos, Angra e Dr. Sin.
Ao longo das três décadas seguintes, o Brasil sediou novas edições do Monsters of Rock, sempre na capital paulista — em 1995, 1996 (com extensão ao Rio de Janeiro), 1998, 2013, 2015 e 2023 —, reforçando sua relevância na cena do rock e ajudando a consolidar o país como rota obrigatória para grandes turnês internacionais.
Essa trajetória vitoriosa culminou no dia 19 de abril de 2025, quando o Monsters of Rock comemorou 30 anos de história no Brasil com uma edição especial no Allianz Parque, em São Paulo. E a Rock Brigade esteve lá para contar tudo para você!
STRATOVARIUS
Uma pista de kart talvez não seja o local mais auspicioso para receber um show de rock — ainda mais o de uma banda estrangeira no auge de sua popularidade, em sua primeira passagem pelo Brasil. Mas a estreia do Stratovarius em terras brasileiras aconteceu justamente assim: num longínquo 30 de outubro de 1997, em Salvador (BA). A turnê, que passou por outras três capitais, selou uma relação de amor e troca que se mantém viva até hoje, mesmo com um Stratovarius bastante diferente daquele de quase três décadas atrás — restam apenas o vocalista Timo Kotipelto e o tecladista Jens Johansson da formação tida como clássica — e com o power metal já entregue ao status de nostalgia que impulsiona vendas.
Na época, o disco em destaque era “Visions”, talvez o mais importante da discografia que hoje soma 16 álbuns. Curiosamente, os carros-chefes da apresentação de 2025 continuam os mesmos: “Black Diamond”, “Eagleheart” e “Hunting High and Low” evocaram nos primeiros fãs que lotaram o Allianz Parque às 11h30 da manhã memórias metálicas da era em que a Rock Brigade Records foi peça-chave na popularização do power metal no Brasil. O próprio “Visions” foi lançado aqui pela gravadora, entre outros títulos.
Em entrevista concedida a este jornalista — disponível em texto e vídeo legendado no YouTube —, Timo e Jens prometeram, naturalmente, os clássicos, mas também faixas do mais recente álbum, “Survive” (2022). “É provavelmente o nosso melhor disco em 20 anos. Está no meu top 3 pessoal”, empolgou-se Kotipelto. O material novo, com timbragem mais pesada e letras densas — apesar de a dupla negar um caráter autobiográfico pós-pandêmico —, destoou dos hinos antigos, cantados em coro e com forte carga emocional. A vibração coletiva nesses momentos contrastou com a recepção morna às músicas recentes. Kotipelto, sempre interativo, incentivou o público a cantar junto, criando uma atmosfera de conexão genuína. Talvez nem ele esperasse encontrar tanta gente no Allianz Parque tão cedo para vê-lo.
OPETH
“Somos a banda mais jovem do cast”, anunciou o vocalista e guitarrista Mikael Åkerfeldt. “E olha que eu já tenho 51 anos!” O espírito zombeteiro tomou conta do líder do Opeth, que enfrentava uma situação adversa em termos de público e circunstância. “Nossa música pode parecer barulho para alguns de vocês… e vocês estão certos”, brincou, arrancando risadas. A abordagem bem-humorada ajudou a cativar parte da audiência, que ainda precisava lidar com um som extremamente comprometido — inadequado para as nuances milimétricas que o quinteto sueco, completado por Fredrik Åkesson (guitarra), Martín Méndez (baixo), Joakim Svalberg (teclados) e Waltteri Väyrynen (bateria), se esforça para reproduzir no palco.
Não foi a primeira vez que o Monsters escalou um “peixe fora d’água” para o evento. A edição de 2023, por exemplo, trouxe os veteranos suecos do Candlemass, que, apesar do pioneirismo no doom metal, arrancaram mais bocejos do que aplausos de um público que majoritariamente havia comprado ingresso para assistir ao Megadeth. Eu até poderia dizer que o problema é o país de origem. Mas a recepção entusiástica ao Europe, mais tarde naquele mesmo dia, trataria de me desmentir com sobras.
QUEENSRŸCHE
Fazia 13 anos que o Queensrÿche não se apresentava no Brasil. A última passagem, para um show único no extinto HSBC Brasil, em São Paulo, como parte da turnê de 30 anos da banda, terminou em socos, pontapés — e rumores de facas sendo sacadas — no camarim, episódio que culminou na saída do vocalista original Geoff Tate. Com a entrada de Todd La Torre naquele mesmo ano, o grupo, então liderado pelo trio Michael “Whip” Wilton (guitarra), Eddie Jackson (baixo) e Scott Rockenfield (bateria), reencontrou-se em som e espírito, lançando desde então quatro álbuns de estúdio que restauraram a credibilidade da banda, outrora abalada — segundo muitos, por culpa de Tate.
Na atual formação, com Mike Stone na segunda guitarra e Casey Grillo na bateria, o Queensrÿche preferiu mirar nos clássicos. “Cobriremos os álbuns mais queridos do nosso catálogo”, prometeu La Torre em entrevista à Rock Brigade. “Ainda não sei exatamente qual será o setlist, mas vamos montar um repertório matador.” A promessa foi cumprida com louvor heroico: logo de cara, a abertura ficou por conta de “Queen of the Reich”. Do mesmo EP de 1983, ainda veio “Nightrider”, cantada apenas pelos fãs mais fiéis.
O clássico “Operation: Mindcrime” (1988) dominou o repertório, com cinco das doze músicas extraídas daquela que é considerada a maior obra-prima do metal progressivo. Destaque para a pouco lembrada “Screaming in Digital” e para “The Needle Lies”, que incitou os primeiros bate-cabeças com risco de torcicolo da tarde. Nada de baladas: “Silent Lucidity” ficou apenas na saudade, e “Empire” (1990) compareceu somente com sua faixa-título — nem mesmo “Jet City Woman” deu as caras. De “The Warning” (1984) — “meu álbum favorito do catálogo”, revelou La Torre —, veio a dobradinha esperada: “Warning” e uma versão de “Take Hold of the Flame” capaz de arrepiar até os capilares intestinais.
“Nós somos o primeiro e único Queensrÿche”, cravou La Torre ao final da derradeira “Eyes of a Stranger”. O recado — ainda que desnecessário — parecia endereçado diretamente a Tate. Só faltou arrematar com um “recuse imitações”. Mas a verdade é que La Torre já superou seu predecessor faz tempo, e os discos da fase 2.0 da banda fazem toda a discografia posterior ao injustiçado “Promised Land” (1994) empalidecer em qualquer comparação direta.
SAVATAGE
O retorno do Savatage aos palcos, após uma década de hiato, e ao Brasil, depois de 24 anos da turnê de “Poets and Madmen” (2001), que passou por Porto Alegre, Piracicaba, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro, era o momento mais aguardado por um Allianz já abarrotado na pista comum e cheio na medida certa no setor Premium. Cadeiras e arquibancadas, ao menos enquanto a luz do dia permitia avaliar, ainda aparentavam comportar mais público — mas vamos lá.
Ninguém sabia ao certo o que esperar do Savatage, especialmente sem a presença do vocalista e tecladista Jon Oliva, atualmente em recuperação de um acidente que quase o levou ao encontro do irmão Criss, morto em 1993. “Perdi o controle do carro em uma poça de água na estrada, aquaplanei e bati em uma árvore. A árvore partiu meu carro ao meio, e por pouco não me atingiu”, relatou ele, com exclusividade, a este jornalista — uma entrevista que repercutiu mundo afora. Mesmo impossibilitado de viajar, Oliva, a exemplo do que David Paich faz com o Toto, atuou como diretor musical, acompanhando de perto a preparação do vocalista Zak Stevens, dos guitarristas Chris Caffery e Al Pitrelli, do baixista Johnny Lee Middleton, do baterista Jeff Plate e dos tecladistas — sim, dois — Paulo Cuevas (colombiano) e Shawn McNair (americano), também responsáveis pelos backing vocals.
Apesar das promessas feitas por Jon, Zak e Chris em entrevistas à imprensa brasileira, tampouco se sabia o que esperar do repertório. Dado o line-up, previa-se uma ênfase nos álbuns “Edge of Thorns” (1993), “Handful of Rain” (1994), “Dead Winter Dead” (1995) e “The Wake of Magellan” (1997) — um deleite para quem aprecia a faceta mais orquestral e grandiosa da banda, mas uma possível frustração para quem se deleita nos timbres crus e agressivos de “Power of the Night” (1985) e “Hall of the Mountain King” (1987). Como agradar a gregos e troianos?
A resposta: pelo apelo emocional. Tudo no palco respirava e reverberava o passado glorioso do Savatage. Das peles dos bumbos de Plate, ostentando a arte de “Handful of Rain”, à animação nos telões, que dava vida à capa da coletânea “From the Gutter to the Stage” (2001) — com roseiras perfurando o muro ao fundo e entrelaçando a guitarra branca que foi de Criss Oliva. Como no CD “The Wake of Magellan” lançado no Brasil pela CID, que costumava dividir espaço com discos da Orquestra Tabajara em postos de gasolina e mercadinhos de bairro — e que Zak, mais tarde, revelaria ser seu favorito da discografia —, a apresentação começou com a instrumental “The Ocean” seguida por “Welcome”. Bastaram essas duas para instaurar o arrebatamento.
A partir daí, foi uma sequência de golaços. Headbangers mais fundamentalistas, já calcinados sob coletes cobertos de patches, vibraram com “Jesus Saves”, um dos destaques de “Streets: A Rock Opera” (1991), e com a clássica “Sirens”, faixa-título do debut da banda em 1983. A ala “sapatênis” — que preza pela complexidade de arranjos e letras pretensamente enriquecedoras — foi contemplada com “Dead Winter Dead”, cuja narrativa sobre a guerra da Bósnia continua atualíssima frente aos conflitos na Ucrânia, e com “Chance”, uma das composições mais ambiciosas do grupo, com seus intricados arranjos vocais sobrepostas em camadas, e uma constatação trágica da situação em que o mundo se encontra, cercado por forças destrutivas que consomem qualquer possibilidade de um futuro melhor.
O que poderia ter sido o ápice — a dobradinha entre “Gutter Ballet”, com sua poderosa carga dramática e a poesia visual nos telões, e “Edge of Thorns”, cujo icônico riff de piano emergiu no fade-out da anterior — foi, na verdade, superado. Quando Jon Oliva apareceu nos telões, envelhecido em aparência e voz, vestido de preto e usando óculos escuros, sentado ao piano para tocar “Believe”, não houve como negar: aquele era o momento definitivo. A banda entrou para acompanhar Oliva a partir da segunda estrofe, num emocionante dueto entre presente e passado, só possível graças à tecnologia.
“Tudo o que lhe peço é para acreditar”, suplicou Jon na última linha da canção. E não há dúvida: a resposta veio de um Allianz inteiro. Porque a vida, definitivamente, é muito melhor com um Savatage ativo.
EUROPE
Alguém tire o “c#ralho” da boca de Joey Tempest. Como uma criança que acaba de aprender seu primeiro palavrão, o vocalista do Europe repetia o termo a plenos pulmões a cada manifestação mais calorosa do público que viu a capital paulista anoitecer ao som de “Rock the Night”, “Carrie” e outros hinos do cânone escandinavo do rock e do metal. Além da boca solta, Tempest exibiu também seu repertório de poses — trejeitos que evocam de Jon Bon Jovi a David Coverdale — tratando o pedestal do microfone como uma extensão da própria genitália, num prato cheio para os fotógrafos que buscavam cliques icônicos da performance.
Diferente de muitos contemporâneos que se arrastam pelos palcos com formações remendadas, o Europe preserva o quinteto clássico que gravou seu maior sucesso: “The Final Countdown”, carro-chefe do disco homônimo lançado em 1986. “É impressionante como uma única música — quatro minutos de som — pode mudar completamente sua vida”, confidenciou o baterista Ian Haugland em entrevista a este jornalista. “Sem ‘The Final Countdown’, não estaríamos aqui hoje.”
Apesar de essa faixa ser, sem dúvida, o grande divisor de águas da carreira dos suecos, a discografia da banda entre o autointitulado “Europe” (1983) e “Prisoners in Paradise” (1991) permanece como referência obrigatória para fãs de melodic rock e AOR. Após a reunião com “Start from the Dark” (2004), os rumos criativos dividiram opiniões. Ainda assim, é difícil ouvir álbuns como este e o mais recente, “Walk the Earth” (2017), sem sentir falta dos teclados grandiosos, dos refrães épicos e da atmosfera de Sessão da Tarde que caracterizavam a fase dourada da banda.
Há, contudo, sinais de um resgate dessa sonoridade clássica. O single “Hold Your Head Up” (2023) reacendeu esperanças, servindo de prévia para um novo álbum que, segundo Haugland, deve sair em 2026, ano em que o grupo celebra os 40 anos de “The Final Countdown”. “Estamos finalizando as demos, e as músicas estão ficando ótimas. Na minha opinião, é o conjunto mais forte de composições que já tivemos nessa fase atual”, afirmou o baterista.
No show, Haugland protagonizou um dos solos de bateria mais curtos da história recente, batendo nas peles por pouco mais de um minuto antes de “Cherokee” — faixa que, apesar da sonoridade festiva, carrega uma letra sombria ao retratar a sangrenta Trail of Tears, que dizimou populações indígenas nos Estados Unidos. A dicotomia entre tema e execução não passou despercebida, ainda que muitos na plateia parecessem mais preocupados em cantar o refrão do que refletir sobre o seu peso histórico.
Nas guitarras, John Norum alternou momentos de brilho e tropeços. Ainda que tenha derrapado no solo de “Superstitious” — originalmente gravado por Kee Marcello, seu tecnicamente superior substituto nos anos 1980 —, Norum reafirmou sua relevância na rifferama pesada de “Scream of Anger” e na delicadeza de “Last Look at Eden”, demonstrando que, embora menos lembrado que alguns de seus compatriotas, merece reconhecimento como um dos grandes nomes suecos das seis cordas.
Quem não teve a mesma sorte foi o tecladista Mic Michaeli, que, em pleno clímax da noite, errou o icônico riff de “The Final Countdown” — um dos momentos mais constrangedores do show. Ainda assim, a falha foi rapidamente perdoada pelo público, que explodiu em um uníssono de vozes para entoar o refrão que, décadas depois, ainda é capaz de mover multidões.
JUDAS PRIEST
O Judas Priest mostrou porque permanece um dos maiores nomes do heavy metal. Rob Halford (vocais), Richie Faulkner e Andy Sneap (guitarras), Ian Hill (baixo) e Scott Travis (bateria) entregaram um show intenso, provando que a banda, mesmo com 55 anos de carreira, continua em altíssimo nível.
Halford, aos 73 anos, impressionou pela presença vocal, encarando músicas de altíssima exigência sem se poupar. Agudos como o de “Victim of Changes” e a performance de “Painkiller” foram momentos de pura consagração — reforçados pela breve homenagem no telão a Glenn Tipton, guitarrista afastado desde 2018 devido ao Parkinson.
Entre os novatos, mas nem tanto, Richie Faulkner, 45, reafirmou seu protagonismo ao assumir a maior parte dos solos com energia e carisma, sem qualquer sinal dos sérios problemas de saúde enfrentados nos últimos anos. Andy Sneap, 55, mais discreto, mostrou-se cada vez mais à vontade no palco e inserido no esquema de couro, rebites e cabeleira, dividindo riffs e harmonias com segurança.
No repertório, o grupo surpreendeu logo de cara ao inverter a ordem habitual: após abrir com “Panic Attack”, um dos fortes singles do novo álbum “Invincible Shield” (2024), emendou “You’ve Got Another Thing Comin’”, tradicionalmente reservada para o encerramento. A escolha inusitada deu o tom do que viria a seguir: um setlist clássico, mas executado com renovada energia.
Faixas como “Rapid Fire”, “Breaking the Law” e “Riding on the Wind” mostraram a banda em ritmo avassalador. “Love Bites”, ilustrada por imagens do clássico “Nosferatu”, manteve sua atmosfera sombria apesar de uma execução um pouco instável. Já “Crown of Horns” reforçou tanto o alcance vocal de Halford quanto o peso moderno do novo material. “Sinner”, do subestimado “Sin After Sin” (1977), foi um dos pontos altos, com Halford dando aula de técnica e interpretação. A tradicional “Turbo Lover” ganhou peso extra ao vivo, acompanhada por uma curiosa imagem de um coração metálico que mais parecia uma bunda no telão. Sugestivo e totalmente à altura dos deuses do metal.
SCORPIONS
“Assina, tio Paulo!” O chocante evento de abril de 2024 em que uma sobrinha levou o cadáver do tio a um banco no Rio de Janeiro para tentar sacar um empréstimo em nome dele me veio à mente assim que bati os olhos em Klaus Meine — o pequeno gigante à frente do Scorpions, que segue na estrada embalado pelas comemorações de 60 anos de atividade.
Debates sobre saber a hora de parar — de sair de cena com dignidade — tendem a se intensificar quando vemos nossos ídolos com evidentes dificuldades de locomoção. Aos 76 anos, Klaus se assemelha ao personagem Sinforoso, de um dos episódios mais notáveis de Chapolin Colorado: pelas primeiras músicas do repertório, manteve-se estático, mexendo apenas o queixo — como um boneco de ventríloquo. Um boneco que, é preciso dizer, ainda canta uma barbaridade.
O contraste com os colegas era gritante. Rudolf Schenker, também com 76 anos, seguia pulando e girando sua guitarra Flying V como se fosse um garoto em seu primeiro festival. Matthias Jabs, de movimentos mais contidos, continua sendo o cérebro das linhas de guitarra, enquanto o baixista Paweł Mąciwoda, discreto, sustentava a base com eficiência. E Mikkey Dee, recém-liberado pelo departamento médico após uma séria internação que quase o reuniu com o ex-patrão Lemmy, fez da bateria sua arena de guerra: castigou o instrumento com baquetas que pareciam rojões nas mãos de um marreteiro de feira.
Se em vigor o Scorpions hoje depende muito do combustível fornecido por Dee, em repertório a banda permanece congelada no tempo — e o público não parece reclamar. Os hinos vieram em série: “Gas in the Tank”, de “Rock Believer” (2022), abriu os trabalhos antes de mergulharmos em “Make It Real”, “The Zoo” e a instrumental “Coast to Coast”. “The Zoo”, com sua cadência pesada e seu riff hipnótico, ainda arranca aplausos, mas parece mais prazerosa para quem toca do que para quem ouve.
“Wind of Change”, agora com letra atualizada em solidariedade à Ucrânia e condenando a à reascendência de ideologias de ódio e intolerância mundo afora. Rock como instrumento de paz? Louvável. Mas a música em si já deu o que tinha que dar. Balada por balada, muito melhor “Send Me an Angel”, quando Schenker surge com seu violão Flying V e a plateia transforma o Allianz Parque em um mar de luzes.
O grande susto da noite foi evitado: ao contrário do show anterior, em Brasília, onde “Still Loving You” foi inexplicavelmente limada — para usar um paralelo de puro romance, é como se o Cannibal Corpse abdicasse de “I Cum Blood” —, a banda trouxe sua balada mais icônica de volta ao set. Executada a toque de caixa, sem direito a um pré-refrão, lá estava ela, fazendo o que sempre fez: emocionar.
O fechamento, claro, coube a “Big City Nights” e “Rock You Like a Hurricane”, provando que, mesmo combalidos, os escorpiões ainda sabem ferroar onde importa.
Se foi a última passagem do Scorpions pelo Brasil? Pode ser. Mas, conhecendo a resiliência desses alemães — e o apetite pelo palco que Mikkey Dee reacendeu —, não seria surpresa se estivermos aqui novamente, em poucos anos, comemorando os 65 anos de estrada da banda.
Texto: Marcelo Vieira; Fotos por Leandro Almeida

