Entrevista: Revengin fala de álbum que foi virada de chave na carreira
Com Dark Dogma Embrace, lançado em abril de 2025, a banda Revengin inaugurou um novo capítulo de sua trajetória no metal sinfônico brasileiro. Mais denso, obscuro e emocionalmente visceral, o álbum marca uma clara virada de chave para a banda — não apenas em termos sonoros, mas também na forma como suas ideias, sentimentos e identidade artística são apresentados. A maturidade conquistada ao longo dos anos, somada à química da formação atual, resulta em um trabalho coeso, atual e profundamente pessoal, que consolida o grupo como um dos nomes mais consistentes do gênero no país.
Nesta entrevista, a vocalista Bruna Rocha fala abertamente sobre o processo criativo por trás do disco, as temáticas que permeiam as letras, os desafios vocais e musicais enfrentados nas gravações, além do impacto das turnês internacionais na postura profissional e artística da banda. Também há espaço para reflexões sobre a cena do metal sinfônico no Brasil, a importância do aspecto visual na música contemporânea e os próximos passos da Revengin, que já projeta novos lançamentos e mais uma etapa de sua jornada pelos palcos europeus.
Rock Brigade: O que Dark Dogma Embrace representa para você pessoalmente e para a trajetória da Revengin?
Bruna Rocha: Dark Dogma Embrace é literalmente uma virada de chave — não só para mim, mas para a banda como um todo. Hoje estamos mais maduros, não apenas em termos de idade, mas musicalmente. Depois de tantos anos desde o lançamento do primeiro full-length [Cymatics (2011)], acredito que o DDE chega para estabelecer um novo marco na nossa trajetória. A formação atual tem uma química muito natural, em que todas as “peças” se encaixam e se complementam. Tudo acontece de forma fluida.
Como tem sido a dinâmica criativa dessa formação atual e de que forma isso se reflete nas composições?
Não temos uma fórmula fixa para compor. Geralmente, eu escrevo as letras, quase sempre a partir de algo que estou pensando ou sentindo — o mesmo vale para as orquestrações. Os instrumentos que escolhemos, os momentos em que entram, saem ou ganham destaque fazem parte dessa expressão emocional.
Também acontece de o Thiago [Contrera, guitarra e vocais guturais], ou o Themys [Barros, guitarra] chegarem com alguma ideia de riff, e a partir disso transformamos tudo em uma nova linha. A experiência e o profissionalismo de cada um contribuem muito para o resultado final.
Quais diferenças você destacaria em relação ao primeiro álbum da banda? Houve mudanças na forma de compor ou produzir?
Acredito que seja um álbum mais pesado, mais obscuro, com elementos mais modernos agregados às orquestrações, que sempre foram a base das nossas composições. Hoje sabemos exatamente o que queremos e como queremos. No Cymatics, por exemplo, ainda estávamos testando formas de transmitir as mensagens e os sentimentos. Era tudo muito mais experimental.
As letras abordam sentimentos muitas vezes silenciados. Quais reflexões ou mensagens o público encontrará nesse trabalho?
Dark Dogma Embrace é um álbum muito pessoal. Ele explora sentimentos que muitas vezes tentamos esconder ou ignorar. Fala de amor, ódio, superação e transcendência. É um trabalho mais visceral, mais obscuro, em que tudo foi pensado para estar exatamente onde está por causa da mensagem que carrega.
Como você equilibra a Bruna artista e a Bruna fora dos palcos? O cotidiano influencia diretamente nas letras e na forma de cantar?
A Bruna dos palcos e a Bruna fora deles são praticamente a mesma pessoa. Tudo é aprendizado e experiência, e isso acaba naturalmente se refletindo nas composições. Por isso, não tenho medo de arriscar novas formas de cantar, compor ou até modificar um pouco a nossa sonoridade — desde que isso faça sentido para nós. Nossa principal premissa é sempre sermos fiéis ao que sentimos e acreditamos.
Qual faixa do álbum foi a mais desafiadora de gravar e por quê?
“Caught in Dark”, sem dúvida. Eu canto em uma região completamente fora da minha zona de conforto, em um registro mais grave do que estou acostumada. Apesar de ter sido um grande desafio, é uma das minhas músicas preferidas. Ela foge totalmente do “padrão”, tanto vocal quanto musicalmente.
Existe alguma música com um significado especial para você?
A “Wish You the Same but Worse”. Ela é extremamente visceral e traduz exatamente o que queríamos transmitir. Fala sobre a batalha mental que todos enfrentamos ao passar por situações de injustiça ou traição. É uma música que não mascara o significado: ela é o recado.
As gravações aconteceram no Tellus Studio, que já recebeu grandes nomes do metal. O que mais te marcou nessa experiência?
Eu amo estar em estúdio. E estar em estúdio com amigos é algo difícil de descrever. É uma experiência muito especial.
O álbum foi produzido pela banda em parceria com Caio Mendonça e Rômulo Pirozzi. Quais foram os maiores desafios e vantagens desse processo?
Todo o processo foi muito natural. Aprendi muito com os meninos. O Rômulo está conosco desde o Cymatics — ele já é praticamente um membro da banda. O Caio, com toda sua perícia, cuidado e profissionalismo, somou de forma grandiosa.
O maior desafio, no início, era entender como poderíamos mexer no nosso som sem perder a identidade, fazendo essa transição sem que soasse forçada ou artificial. Eles foram fundamentais para que isso acontecesse. A maior vantagem foi o envolvimento de todos com o mesmo objetivo.
Os videoclipes têm uma forte identidade cinematográfica. Como vocês trabalham o aspecto visual hoje?
O visual é uma extensão da experiência musical. O maior desafio foi mesclar a essência de pessoas que nasceram nos anos 1980 com a modernidade atual, sem parecer algo forçado. O resultado ficou muito natural, e eu simplesmente estou apaixonada pelos vídeos.
Como as experiências em festivais como o Rock in Rio e turnês internacionais influenciaram a banda?
Aprendemos muito em todas elas. Com o tempo, entendemos o quanto é importante estar preparado e se profissionalizar dentro do metal. Na nossa primeira ida à Europa, fomos “na cara e na coragem” e voltamos com uma visão completamente ampliada.
O Rock in Rio também foi um verdadeiro curso intensivo. E não posso deixar de citar o show na comunidade da Maré, que acabou sendo decisivo para a ida à Europa. Nesse dia aconteceu de tudo — inclusive o tecladista levando apenas um teclado MIDI porque o outro ficou em outro carro!
Quais foram os principais aprendizados profissionais ao tocar fora do Brasil?
Aprendemos muito, principalmente sobre profissionalismo. Mesmo no underground, somos tratados como músicos e prestadores de serviço. Quando você entende isso, tudo muda. Além da troca musical, conhecer culturas diferentes ampliou muito nossos horizontes.
O que uma turnê europeia exige de diferente em relação a uma circulação nacional?
Antes de tudo, exige postura profissional. Não é “rolê”, é trabalho — com horários, cronogramas e acordos. Em todos os lugares por onde passamos, tudo funcionou exatamente como combinado. Essa postura faz toda a diferença.
Houve algum momento marcante ou “perrengue” na última turnê pela Europa?
Perrengues sempre existem, em qualquer turnê. Nossa van quase foi rebocada e ainda levamos uma multa, por exemplo. Mas o mais importante é estarmos todos focados no mesmo objetivo.
Quanto à identidade da banda, a cada dia ficamos mais entrosados. Ao vivo, soamos ainda mais pesados e enérgicos. O show na Áustria foi emocionante, especialmente por conhecermos refugiados da Ucrânia. Na Hungria, pessoas que nos viram em 2014 apareceram novamente. E na Romênia, a interação com o público foi algo indescritível. Cada show trouxe um aprendizado.
Como você enxerga a cena brasileira de metal sinfônico hoje?
Existem muitas bandas excelentes de metal sinfônico no Brasil. O que percebo é uma preferência de divulgação por determinados nichos e bandas, o que acaba reforçando a ideia de que o gênero é “pequeno”. Mas isso vai muito além do público. Envolve interesses, “panelas” e estruturas já estabelecidas entre bandas, veículos e produtores.
Ainda assim, vemos uma movimentação positiva em prol de novas bandas — e isso é essencial. Cena não se constrói com meia dúzia de nomes. Um país continental como o Brasil não se resume a três ou quatro bandas ou gêneros.
Quais são as prioridades da banda Revengin daqui para frente?
Estamos nos preparando para a turnê de novembro, impulsionada pela ótima recepção na Europa. A segunda etapa da Dark Dogma Tour incluirá mais três países. Em breve divulgaremos tudo.
Além disso, já estamos produzindo o próximo álbum, previsto para o final de 2026 ou início de 2027. Ou seja, ainda vem muita novidade por aí.
Ouça “Dark Dogma Embrace” em https://orcd.co/darkdogmaembrace
Por Marcelo Vieira
Foto: Ian Dias (@diasphotograph)

