Kampfar prepara estreia visceral em São Paulo: confira entrevista
Para que não houvesse erro, antes de mergulhar nas perguntas, comecei o bate-papo com Dolk (nome artístico do vocalista Per-Joar Spydevold) com algo aparentemente simples: qual é a pronúncia correta de “Kampfar”? Com a dúvida sanada, pude avançar para temas mais substanciais, como as expectativas em torno da primeira vinda da banda ao Brasil — para show único no dia 31 de maio, no Manifesto Bar, em São Paulo —, os planos para o sucessor de Til Klovers Takt (2022), já em estágio avançado de produção, e ainda fazê-lo eleger, sob o sol primaveril da Noruega, os cinco discos mais importantes de sua vida. Boa leitura!
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Rock Brigade: O que distingue, para você, um show “padrão” de black metal de uma apresentação do Kampfar?
Dolk: Boa pergunta, porque não existe exatamente um padrão. O que fazemos no Kampfar nunca foi convencional dentro do black metal. Apesar de termos surgido no início dos anos 1990 e mantermos essa conexão, sempre seguimos um caminho próprio. Para mim, tudo gira em torno de sentimentos pessoais — embora a atitude e a essência do black metal estejam totalmente presentes. No palco é onde realmente pertencemos. Nunca fomos uma banda de estúdio; é ao vivo que extraímos o melhor de nós, de forma honesta e verdadeira.
Esta turnê percorre diferentes fases da discografia. Como montar um setlist que funcione como narrativa?
É um grande desafio. Estamos na estrada há mais de três décadas, com nove álbuns lançados, e precisamos equilibrar o apego do público ao material antigo e ao mais recente. Já encontrei fãs que conheceram o Kampfar pelos pais e jovens de 14 anos conectados à fase atual. Unir essas gerações é, talvez, nossa essência. Nos shows de 30 anos na Europa, buscamos criar esse fluxo histórico — e acredito que conseguimos. Não tocamos apenas o novo ou o antigo: conectamos tudo em uma linha contínua.
Em um show único e mais intimista, como no Manifesto Bar, isso muda sua abordagem?
Sim, de certa forma. Em ambientes menores, a experiência se torna mais direta e visceral. A conexão com o público é mais intensa, e isso naturalmente influencia a entrega — tudo fica mais próximo, mais cru. Ainda assim, a essência permanece a mesma: honestidade e presença total no momento.
Existe alguma música que ganha outro significado ao vivo?
Sim, “The Sorte”, do álbum Ophidian’s Manifest (2019). É extremamente pessoal — nasceu de um momento em que eu pensava em não continuar vivendo. Durante o processo, o pai do nosso guitarrista [Ole Hartvigsen] faleceu, o que tornou tudo ainda mais pesado. A música virou uma espécie de cápsula emocional para atravessarmos aquilo. Tocá-la ao vivo ainda me provoca um arrepio profundo.
Você enfrentou depressão?
Sim. Foi daí que a música surgiu. Eu estava no fundo do poço — e ela nasceu exatamente desse lugar.
Há uma ideia comum de que o público latino é mais intenso. Isso corresponde à sua experiência?
Ainda não fizemos uma turnê completa pela América do Sul — o que é uma pena após mais de três décadas. Tocamos em festivais, especialmente no México, mas não tenho uma base ampla de comparação. Ainda assim, conheço muitos fãs sul-americanos e sei o quanto isso significa para eles. Poder finalmente tocar aí, mesmo em clubes menores, será algo muito especial — para nós e, espero, para o público.
Existe algum contraste cultural que te chama atenção?
Sim. Cresci nos anos 1970, quando a América Latina parecia distante, quase inalcançável. Depois, nos anos 1990, trocávamos cartas com fãs da região, antes da internet, e isso criou uma conexão forte. Apesar da imagem de riqueza, a Noruega também teve tempos difíceis, com uma sociedade rígida e marcada por valores conservadores. De certa forma, há paralelos culturais e históricos que se encontram.
Sobre Til Klovers Takt (2022): como foi o processo?
Começamos durante a pandemia. Sem shows, nos isolamos em uma cabana nas montanhas de Hemsedal [N.R.: região montanhosa da Noruega] e passamos um longo período apenas criando. Foi um retorno às raízes, sem distrações externas. Esse isolamento trouxe algo muito pessoal e verdadeiro — uma sensação de liberdade que ainda carrego.
Vocês ficaram mais experimentais nesse período?
Sim, de forma natural. Não foi planejado, mas o contexto nos levou a explorar mais.
Já há material novo em andamento?
Sim, mas ainda é cedo para revelar detalhes.
Em que estágio estão essas composições?
Já estão bem avançadas. Poderíamos entrar em estúdio amanhã, mas preferimos lapidar um pouco mais.
Três décadas no black metal representam mais que tempo — são prova de resistência. O que mantém o Kampfar relevante sem diluir a identidade?
É difícil responder. Estou no black metal há quatro décadas — o Kampfar foi minha primeira banda — e, nesse tempo, conheci muita gente que segue ativa desde os anos 1990. Essas pessoas não estão nessa por fama ou dinheiro, mas porque isso é a vida delas. É assim comigo também. Não fazemos Kampfar por obrigação; fazemos porque é parte de quem somos. Quando algo vira modo de vida, não dá para simplificar. Veja gente como Fenriz (Darkthrone): ele segue firme por convicção, não por outra razão. É isso que nos mantém.
Como você enxerga o black metal hoje, em um cenário dominado por plataformas digitais?
É um desafio constante. Manter-se fiel a si mesmo nesse ambiente é difícil. Vejo muitas bandas soando iguais, seguindo fórmulas mais comerciais. Ainda assim, o black metal permanece relevante porque muitos artistas seguem conectados às próprias raízes. Meu foco é o Kampfar. O importante é olhar no espelho e saber que fiz algo verdadeiro — não algo imposto por gravadora ou produtor.
Quais são seus cinco álbuns favoritos?
Pergunta difícil. A Blaze in the Northern Sky (1992), do Darkthrone, foi essencial para mim — mudou a forma de pensar o gênero. O debut do Morbid Angel [Altars of Madness (1989)] também foi decisivo, especialmente depois de vê-los ao vivo no fim dos anos 1980. Mercyful Fate, especialmente Don’t Break the Oath (1984), sempre será fundamental. Master’s Hammer, com The Jilemnice Occultist (1992), influenciou muito mais gente do que admitem. E, por fim, Master of Puppets (1986), do Metallica — especialmente pela forma de compor e pelo trabalho de baixo.
Em que momento o Metallica “acabou” para você?
Para mim, foi no Black Album (1991). Ali terminou.
Por Marcelo Vieira

