Ozzy: mais do que música, uma expressão neurocomportamental
O falecimento de Ozzy Osbourne marca mais do que o fim de uma trajetória pessoal. Encera-se também um ciclo arquetípico da música contemporânea. Com o Black Sabbath, Ozzy não apenas fundou uma vertente musical como traduziu, por meio de sonoridades pesadas e letras densas, estados cognitivos de um tempo marcado por ruptura e dissonância.
A estética do heavy metal não surgiu como produto comercial, mas como resposta neurossocial. A frequência sonora mais grave combinada a letras que tensionam moralidade e dor funciona como descarga emocional para cérebros com padrão limítrofe de contenção límbica. A lógica aqui é biológica: há sujeitos cujos sistemas dopaminérgicos e serotoninérgicos processam estímulos com atraso inibitório reduzido. O som que para muitos é ruído, para outros é alinhamento interno.
Ozzy operou nessa frequência. Ele não criou apenas riffs distorcidos ou vocais característicos. Criou uma via de comunicação com o não-dito. No período pós-guerra e início da urbanização acelerada no Reino Unido, jovens com histórico familiar instável, neurodesenvolvimento pouco estimulado e personalidade divergente encontraram no metal uma ponte entre a frustração e a expressão. Esse tipo de som atrai especialmente cérebros com maior carga genética de reatividade emocional, mas com inteligência verbal acima da média.
O Black Sabbath representou, então, mais do que um estilo. Representou uma codificação emocional. E Ozzy foi o condutor desse processo. O vocal agressivo, muitas vezes arrastado, unia características quase primitivas do canto com o alcance lírico de um tempo politicamente desordenado. Era uma linguagem reconhecível para quem não se reconhecia em nada.
A partir dos anos 1980, o gênero se fragmentou, como qualquer movimento originário. Mas a gênese, conduzida por Ozzy, permanece intacta. Sua trajetória reflete não apenas a vida de um artista, mas a de alguém que ativou um campo neural coletivo. Há marcadores genômicos que indicam maior propensão à sensibilidade sonora profunda associada a estados de excitação mental. Ozzy é um caso de convergência entre predisposição comportamental e função social espontânea.
A música de Osbourne é memória viva do tempo em que sentir era insuportável e gritar era a única via de consciência. Não como catarse literária, mas como pulsação neural amplificada por guitarras, graves e dores mal resolvidas.
Texto: Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues

