Rock, inteligência e tolerância à dor: estudos investigam cognição e dor
Pesquisas analisam a preferência musical de pessoas com alto QI e a maior tolerância à dor observada entre fãs de heavy metal. Os neurocientistas Fabiano de Abreu Agrela e Luiz Felipe Carvalho, pesquisadores do CPAH, explicam como atenção, emoção e processamento cerebral podem participar dessas respostas.
A música pode se relacionar com diferentes processos cognitivos e alterar a forma como uma pessoa direciona a atenção diante de um estímulo doloroso. Dois trabalhos, com perguntas distintas, ajudam a observar essa relação: um investigou as preferências musicais de indivíduos com alto QI; outro avaliou a tolerância à dor entre participantes de um festival de heavy metal.
Os temas são analisados por dois pesquisadores do CPAH, Centro de Pesquisa e Análises Heráclito. O neurocientista Dr. Fabiano de Abreu Agrela estudou a preferência musical de pessoas com alto QI. O médico ortopedista e mestre em Neurociências Dr. Luiz Felipe Carvalho comenta os mecanismos que podem explicar mudanças na tolerância à dor em ambientes de forte envolvimento musical.
Pessoas com alto QI demonstraram preferência por rock
O estudo “O estilo musical de pessoas inteligentes”, de Fabiano de Abreu Agrela, publicado na revista científica Ciência Latina, analisou uma amostra de 50 voluntários com alto QI, incluindo integrantes da Mensa.
A maior parcela dos participantes indicou preferência por rock, seguida por heavy metal. Em situações de estudo, os voluntários relataram maior preferência por músicas clássicas ou instrumentais.
O resultado não estabelece que ouvir rock seja consequência direta de uma inteligência elevada. O próprio estudo trata a preferência musical como um fenômeno relacionado a diferentes variáveis individuais e cognitivas.
“O processamento musical envolve percepção, reconhecimento e emoção. O córtex auditivo primário e o giro temporal superior participam da percepção musical, enquanto diferentes áreas auditivas processam elementos como tom, melodia e harmonia”, explica Fabiano de Abreu Agrela no trabalho.
A interpretação passa pela forma como o cérebro organiza estímulos complexos. Ritmo, estrutura, intensidade, previsibilidade e variações musicais ativam sistemas de percepção, atenção, memória e emoção. A preferência individual depende da interação entre essas respostas e a experiência de cada pessoa.
Música também interfere na atenção
Fabiano aponta que a relação com a música não se limita ao entretenimento. Determinadas escolhas musicais podem acompanhar atividades que exigem concentração, relaxamento ou regulação emocional.
O artigo cita estudos sobre música em diferentes condições neurológicas e cognitivas e discute pesquisas sobre dopamina, memória e musicoterapia.
O trabalho também menciona uma pesquisa publicada por Rasevska e colaboradores, em 2019, com 467 estudantes. Nesse estudo, maior inteligência esteve associada à preferência por música instrumental.
Esse dado acompanha o resultado observado entre os participantes de alto QI avaliados por Fabiano, que relataram maior uso de música clássica ou instrumental em momentos de estudo.
Heavy metal e tolerância à dor
Outra investigação colocou a música num ambiente completamente diferente. Um estudo publicado em agosto de 2026 na revista Scientific Reports avaliou participantes do Wacken Open Air, festival de heavy metal realizado na Alemanha.
Os investigadores Lydia Schneider e Tom Fritz, do Max Planck Institute for Human Cognitive and Brain Sciences, estudaram 122 fãs de heavy metal.
O experimento utilizou um teste de dor pelo frio. Os voluntários colocavam a mão e parte do antebraço em água gelada enquanto os investigadores acompanhavam parâmetros fisiológicos.
Participantes que já estavam envolvidos havia alguns dias na experiência do festival conseguiram manter o braço na água durante mais tempo quando comparados com participantes avaliados antes dos concertos.
A diferença apareceu principalmente na tolerância à dor. Os participantes não necessariamente afirmaram que o estímulo tinha deixado de doer ou que se tornara menos desagradável. Isso muda a interpretação do resultado.
O heavy metal não funcionou como um anestésico. A experiência parece ter modificado a capacidade dos participantes de permanecer diante do estímulo doloroso.
Atenção pode modificar a experiência da dor
Para Dr. Luiz Felipe Carvalho, pesquisador do CPAH, o mecanismo não precisa ser exclusivo do heavy metal.
“Não é necessariamente um género específico ou uma música específica. Quaisquer fatores que distraiam a pessoa e que sejam agradáveis para ela têm o potencial de desviar o foco e modular a percepção da dor”, explica.
A dor depende do estímulo físico, mas sua experiência consciente também envolve atenção, emoção, expectativa e ambiente.
“A dor não é apenas uma informação isolada que chega ao cérebro. A forma como a pessoa está emocionalmente, onde está sua atenção e quais estímulos estão competindo por esse foco podem influenciar a maneira como essa sensação é percebida”, afirma Luiz Felipe Carvalho.
Essa distinção ajuda a interpretar o experimento alemão. A exposição ao festival não eliminou a dor. Os participantes demonstraram maior capacidade de tolerá-la.
O ponto de encontro entre os dois estudos
As duas pesquisas não investigaram a mesma pergunta e não podem ser tratadas como demonstração de um único mecanismo.
O estudo de Fabiano de Abreu Agrela analisou preferência musical em pessoas com alto QI. O trabalho de Schneider e Fritz analisou tolerância à dor em fãs de heavy metal dentro do ambiente de um festival.
O elo está na participação da música em processos que dependem de atenção, emoção e processamento cognitivo.
Uma pessoa pode procurar estruturas musicais específicas porque elas se ajustam às suas preferências cognitivas. A mesma capacidade da música de capturar atenção e produzir envolvimento emocional pode interferir na forma como outros estímulos são processados.
Isso não significa que rock aumente inteligência. Também não significa que heavy metal deva ser usado como tratamento para dor.
Os resultados mostram associações observadas em contextos específicos.
Preferência individual muda a resposta
O efeito de uma música depende da pessoa que a escuta. Uma canção altamente agradável para um indivíduo pode aumentar envolvimento e competir pela atenção com outros estímulos. A mesma música pode produzir irritação ou desconforto em outra pessoa.
“Uma música que uma pessoa adora pode funcionar como um estímulo de distração e envolvimento emocional, enquanto para outra não terá o mesmo efeito. O cérebro trabalha constantemente selecionando e priorizando estímulos”, explica Luiz Felipe Carvalho.
Essa individualidade também impede generalizações sobre inteligência e género musical. O estudo com pessoas de alto QI identificou uma frequência maior de determinadas preferências dentro daquela amostra. Ele não estabelece que pessoas inteligentes necessariamente gostem de rock ou heavy metal.
Música, cérebro e comportamento
Os dois trabalhos apontam para uma característica comum: ouvir música é uma atividade cerebral ativa.
O cérebro identifica sons, organiza padrões, antecipa sequências, recupera memórias, atribui conteúdo emocional e direciona atenção. Essa combinação pode ajudar a entender por que a música acompanha atividades intelectuais, altera estados emocionais e interfere na forma como outros estímulos são percebidos.
Para Fabiano de Abreu Agrela, as preferências encontradas entre indivíduos com alto QI precisam ser interpretadas considerando as diferenças cognitivas e individuais dos participantes.
Para Luiz Felipe Carvalho, o estudo realizado no festival alemão reforça que a experiência dolorosa não depende apenas do estímulo físico.
“Estudos como esse mostram como a experiência da dor é complexa. O cérebro recebe o estímulo físico, mas fatores emocionais, cognitivos e ambientais também participam da forma como reagimos a ele”, conclui.

