Entrevista: David K. Starr fala sobre Vicious Rumors e sobre Parkinson
Veterano do heavy metal norte-americano, David K. Starr construiu uma trajetória sólida e respeitada ao longo de décadas, deixando sua marca em bandas fundamentais como Vicious Rumors, Chastain e, mais recentemente, no WildeStarr. Baixista de formação, mas sempre com forte veia composicional, Starr retorna agora aos holofotes com “Not Dead Yet”, um single e videoclipe que representam não apenas um novo capítulo artístico, mas também um poderoso testemunho pessoal. Diagnosticado com Parkinson em 2020, o músico transforma dor, incerteza e resiliência em um manifesto de sobrevivência direto, intenso e universal.
Mais do que um simples lançamento, “Not Dead Yet” marca uma série de estreias na carreira de Starr: pela primeira vez, ele assume os vocais principais e grava todas as guitarras, apostando em uma abordagem mais crua e urgente, sem perder o peso característico de sua obra. Ao longo desta entrevista exclusiva, David reflete com franqueza sobre o impacto do diagnóstico em sua vida criativa, revisita momentos-chave de sua história no Vicious Rumors e no Chastain, comenta suas escolhas artísticas atuais e deixa claro que, mesmo diante dos desafios, a chama criativa segue acesa — e mais combativa do que nunca.
Rock Brigade: Você toca todas as guitarras em “Not Dead Yet” e assume os vocais principais pela primeira vez. O que foi mais desafiador nesse acúmulo de funções: as exigências técnicas ou o peso emocional de se expor de uma forma inédita?
David K. Starr: Com exceção de algumas bandas bem ruins em que toquei quando estava começando, eu nunca tinha cantado antes. Então tudo isso foi completamente novo para mim. Mas acho que fiz um bom trabalho, e os fãs têm dito que gostaram. Confesso que fiquei muito nervoso antes da música ir ao ar no YouTube, porque eu realmente não fazia ideia de qual seria a reação!
Como baixista, você sempre foi reconhecido pelo drive e pela solidez rítmica. Agora, compondo e gravando como guitarrista, de que maneira seu background no baixo influencia suas escolhas de riffs e harmonias?
Para mim, tudo é música. Sempre pensei na canção como um todo quando criava linhas de baixo. Hoje, prefiro ser reconhecido pelas minhas habilidades como compositor. No Vicious Rumors, minhas linhas de baixo eram um pouco mais melódicas e complexas — quando eu conseguia escapar disso [Risos.] Hoje já não toco dessa forma. Meu foco está mais em sustentar os vocais e as guitarras.
A estrutura de “Not Dead Yet” é direta e urgente — quase como um manifesto. Durante o processo de composição, houve momentos em que você precisou simplificar ideias ou cortar elementos para manter essa sensação de imediatismo?
A mensagem da música é muito pessoal e poderosa, então eu queria quatro minutos de metal na cara, sem rodeios. Simplifiquei as partes de guitarra solo, mas isso tem mais a ver com os problemas que venho enfrentando por causa do Parkinson e com o impacto que a doença teve na minha forma de tocar. Já não consigo mais tocar como nos três álbuns do WildeStarr, então reduzi um ou dois níveis, para algo em que eu me sentisse confortável. Menos técnico, mas ainda cru e poderoso.
Ao longo dos discos com o WildeStarr, você explorou temas literários e emocionais de maneiras bem distintas. Onde “Not Dead Yet” se encaixa nessa evolução criativa?
No WildeStarr, a vocalista London Wilde escrevia todas as letras para as músicas que eu compunha. “Not Dead Yet” se destaca justamente porque eu escrevi a letra, a música e ainda cantei. Não chego nem perto do nível vocal dela, mas consegui transmitir a mensagem da canção. Vejo isso como uma evolução criativa, no sentido de conseguir realizar tudo isso em alto nível e contar a minha própria história.
Você já disse que evitou mencionar diretamente o Parkinson na letra para não cair no sentimentalismo. Como você definiu esse limite entre vulnerabilidade honesta e exposição excessiva?
A origem da música está diretamente ligada aos problemas que enfrentei nos últimos cinco anos desde o diagnóstico. Mas, conforme fui trabalhando na letra, transformei a canção em um hino para qualquer pessoa que esteja passando por grandes desafios na vida. Pode ser a perda de alguém querido, um coração partido, uma doença grave e incurável como a minha, ou qualquer outra coisa que a vida jogue no seu caminho. Todos nós passamos por dor em algum momento. “Not Dead Yet” é sobre se manter firme diante da adversidade.
Muitos artistas dizem que um diagnóstico muda a urgência criativa. Desde 2020, você sentiu alguma transformação na forma de compor ou escolher temas?
Para começar, eu não sei quanto tempo ainda tenho de vida — ou por quanto tempo ainda vou conseguir tocar guitarra. Então existe, sim, uma urgência enorme em fazer o máximo possível dentro do tempo que me resta. O Parkinson drena muita da minha energia, e isso é algo com que preciso lidar todos os dias. Tenho um milhão de coisas que gostaria de fazer diariamente, mas tempo e energia limitados para realizá-las.
Houve algum conselho — de médicos, amigos ou outros músicos — que se tornou essencial para enfrentar a doença e continuar criando?
Basicamente, é fundamental se manter ocupado, ativo e envolvido. A vida continua, e a pior coisa que você pode fazer é ficar parado, sentindo pena de si mesmo. São lembretes importantes que faço a mim mesmo todos os dias.
Você vê “Not Dead Yet” como uma obra isolada ou como o início de um novo ciclo criativo, talvez até um álbum solo completo? Que ideias estão surgindo para os próximos passos?
“Not Dead Yet” é um single e um videoclipe independentes, mas a resposta e o apoio que recebi foram incríveis. Neste estágio da minha vida e da minha carreira, não tenho mais muita vontade de gravar álbuns completos. Prefiro lançar uma ou duas músicas e clipes por ano. Com certeza tenho muitas ideias novas surgindo!
Agora, voltando no tempo… Durante sua primeira passagem pelo Vicious Rumors (1984–1993), a banda ajudou a definir um tipo de metal preciso, técnico e ainda assim muito emocional. Que aspectos dessa estética você sente que foram diretamente moldados por você — coisas que talvez só os integrantes percebam?
Além de ser o baixista daqueles grandes álbuns, fui eu quem trouxe Carl [Albert, vocalista] e Mark [McGee, guitarrista] para a banda em 1986. Isso foi gigantesco para o Vicious Rumors — mudou tudo. Muitos fãs não conhecem essa história.
O álbum Digital Dictator (1988) ainda é citado como influência por músicos mais jovens. Na época, vocês tinham alguma noção de que estavam criando algo duradouro, ou era apenas uma busca diária por algo “melhor do que ontem”?
É um álbum fantástico, que resistiu ao teste do tempo. Trinta e oito anos depois do lançamento, ele ainda soa poderoso. Quando trouxe Carl e Mark para a banda, tudo simplesmente se encaixou — foi mágico. Na época, nosso único objetivo era fazer um grande disco. Não havia planos grandiosos nem bola de cristal. Não fazíamos ideia do impacto enorme que Digital Dictator teria.
Existe algum momento daquela fase que, para você, represente perfeitamente o espírito da banda naquele período?
É difícil apontar um só. Tínhamos uma base de fãs muito forte na região da Baía de São Francisco, e os shows ficavam cada vez maiores. Tenho lembranças muito gostosas daquela época. Estávamos subindo degrau por degrau, nos divertindo muito — foi um período incrível para nós cinco.
Quando você retornou ao Vicious Rumors em 2005, para o álbum Warball, o cenário do metal já era outro. O que mudou na sua forma de tocar e gravar baixo — e também na dinâmica da banda — em comparação com o fim dos anos 80 e início dos 90?
Foi um período estranho para mim. Eu estava sóbrio havia cerca de seis meses quando gravei esse disco. Toquei baixo de oito cordas em todas as músicas. Em geral, mantive tudo mais grave e pesado. Mas, sinceramente, meu coração já não estava totalmente ali. Não havia Carl nem Mark. Eu já tinha começado a trabalhar em músicas com minha esposa — aquilo foi o embrião do WildeStarr, que era o que eu realmente queria fazer. Gravei o Warball e, pouco tempo depois, avisei o Geoff [Thorpe, guitarrista] que estava saindo. Ele não ficou feliz, mas senti que era a decisão certa para mim. É um grande álbum, e foi legal voltar a tocar com Geoff e Larry [Howe, baterista], mas eu não queria ser conhecido como “o baixista do Vicious Rumors” pelo resto da vida. Eu tinha outros caminhos a seguir.
Sobre sua fase no Chastain e o álbum In an Outrage (2004): qual foi a diferença mais marcante entre trabalhar com David Chastain e a dinâmica mais coletiva do Vicious Rumors?
No Chastain, eu era um músico contratado, um session player. Então, na maior parte do tempo, guardava minhas opiniões para mim. Era claramente o projeto do David Chastain, e eu sabia disso. Dito isso, ele foi ótimo de trabalhar: um talento incrível e uma pessoa fantástica. Além disso, foi a primeira vez em anos que Larry Howe e eu tocamos juntos novamente.
Em In an Outrage, algumas faixas têm uma densidade mais sombria e quase introspectiva. Como foi contribuir para um disco mais pesado emocionalmente em comparação ao que você vinha fazendo antes?
Senti que algumas dessas músicas me lembravam o Vicious Rumors. A cantora Kate French era uma grande fã da banda, então talvez isso tenha influenciado.
Você já comentou que sempre buscou linhas de baixo que fossem além de simplesmente “sustentar a base”. Qual música de toda a sua carreira melhor representa essa filosofia?
“Out of the Shadows” tem uma linha de baixo incrível — praticamente uma música dentro da música. O Mark escreveu essa canção, e ele era mais receptivo às minhas linhas de baixo complexas e em movimento. “Ends of the Earth” é outra ótima música, com uma linha bem elaborada também. E “Ship of Fools” é mais uma: a maior parte do baixo é simples, mas Mark, Geoff e eu fazemos juntos aquele solo em harmonia a três partes… soa absolutamente épico!
Para encerrar: que linha de baixo famosa você gostaria de ter escrito — e por quê?
Nossa, essa é difícil! Precisaria de alguns dias pensando nisso. É complicado escolher só uma, mas o Joe Bouchard, do Blue Öyster Cult, é um dos meus baixistas favoritos. As linhas de baixo em “Burnin’ for You” são extremamente melódicas e envolventes. Eu adoro a forma como ele toca.
Por Marcelo Vieira

