Don Van Stavern antecipa setlist do show do Riot em SP: confira a entrevista
A comemoração do Dia Mundial do Rock na capital paulista marcará a volta do Riot — ou Riot V, para manter a lisura do processo — a terras tupiniquins menos de um ano após sua passagem mais recente pelo país. A banda, porém, não é a mesma que esteve por aqui em setembro de 2025. Impedido pela esposa de excursionar, o vocalista Todd Michael Hall deixou os colegas a ver navios, obrigando-os a recorrer ao italiano Valentino Francavilla, que passou pelo batismo de fogo dos palcos europeus. Mas quem conversa comigo sobre a apresentação que se aproxima — incluindo diversos spoilers sobre o setlist — é o veterano baixista Don Van Stavern, responsável por preservar o legado do saudoso guitarrista e fundador Mark Reale e manter o grupo entre os principais nomes do metal clássico ainda em atividade.
Rock Brigade: O Riot V está voltando ao Brasil menos de dois anos depois da última apresentação em São Paulo. O que ficou daquela experiência para despertar a vontade de retornar tão rapidamente?
Don Van Stavern: As mulheres! (risos) Não, estou brincando. O que realmente nos faz voltar são as pessoas. Muita gente pergunta se fazer turnês é apenas uma questão de dinheiro, mas, para mim, o mais importante é conhecer pessoas, vivenciar outras culturas, experimentar a comida local e descobrir novos lugares. O Brasil é sempre fantástico. Os fãs brasileiros estão entre os melhores do mundo: cantam todas as músicas, conhecem cada verso e apoiam o Riot há décadas. Quando o nosso produtor no Brasil disse que o público já queria a banda de volta, respondi na hora: “Vamos!”. Estamos muito animados para retornar. Vamos tocar todos os clássicos, mas também incluímos algumas músicas que não apresentávamos há bastante tempo. Vai ser um show especial.
O repertório costuma privilegiar a fase clássica do Riot, mas muitos fãs defendem que os discos posteriores já merecem o mesmo status. Quais músicas lançadas depois de 1988 você considera verdadeiros clássicos hoje?
Montar um setlist do Riot nunca é uma tarefa simples, porque a banda tem 18 álbuns de estúdio. Se tocássemos apenas uma ou duas músicas de cada disco, o show teria três horas de duração! Tenho certeza de que os fãs adorariam, mas nós já não somos tão jovens assim. (risos)
Naturalmente, precisamos incluir faixas dos álbuns que definiram a história da banda, principalmente Fire Down Under (1981) e Thundersteel (1988), que continuam sendo nossos trabalhos mais emblemáticos. Também gostamos de revisitar os primeiros discos com músicas como “Warrior” e “Road Racin’”. De Fire Down Under, “Swords and Tequila” e “Outlaw” são indispensáveis.
Uma música que estamos resgatando é “Altar of the King”, muito pedida pelos fãs. A fase com Rhett Forrester também foi importante. Ele tinha uma abordagem muito mais voltada ao rock ‘n’ roll, então aquele repertório possui uma identidade diferente. Ao longo dos anos alternamos músicas como “Hard Lovin’ Man”, “Heavy Metal Machine” e “Restless Breed”. No momento, estamos inclinados a trazer “Heavy Metal Machine” de volta.
Já Thundersteel sempre ocupa um espaço importante no repertório, com faixas como “Thundersteel”, “Johnny’s Back”, “Flight of the Warrior” e “Bloodstreets”. De The Privilege of Power (1990), temos tocado “On Your Knees” e “Storming the Gates of Hell”.
Depois vem a fase de Mike DiMeo. Aqueles discos tinham uma sonoridade diferente, muito por causa da influência vocal dele, que lembrava bastante David Coverdale. Estamos conversando sobre resgatar “Angel Eyes” e, nesta turnê, também vamos tocar “Nightbreaker” e “Destiny”. Não vou entregar o setlist inteiro, mas certamente vamos revisitar esse período.
Quanto aos discos do Riot V, os fãs pediram muito o retorno de “Metal Warrior”, então ela está de volta ao repertório. Também vamos tocar músicas como “Victory”, “Devil’s Reign” e resgatar “Wings Are for Angels”, de Immortal Soul (2011), o último álbum concluído por Mark Reale antes de sua morte [em 2012]. Além disso, incluiremos algumas faixas dos trabalhos mais recentes.
No total, o show terá entre 20 e 22 músicas, com cerca de uma hora e meia de duração. Montar esse repertório nunca é fácil, mas acrescentamos quatro canções que não tocávamos ao vivo havia bastante tempo. Acho que os fãs vão gostar muito dessas surpresas.
Mais de três décadas depois, Thundersteel continua aparecendo em listas dos maiores álbuns de heavy metal de todos os tempos. O que você acredita que esse disco acertou de forma tão especial?
Acho que ele realmente merece esse reconhecimento. O Riot tem uma história muito longa. A formação original surgiu no fim dos anos 1970 e lançou alguns discos excelentes. Depois veio Fire Down Under, que foi o álbum que colocou a banda em evidência. Mas, como você disse, Thundersteel acabou se tornando o trabalho mais emblemático do Riot.
Sempre que excursionamos pela Europa, percebemos isso claramente. O público gosta de Fire Down Under, mas o que realmente quer ouvir é Thundersteel. Por isso nossos setlists sempre dão um destaque muito grande a esse álbum. “Thundersteel” nunca pode ficar de fora, e normalmente tocamos “Swords and Tequila” para representar Fire Down Under. Nesta turnê, inclusive, acrescentamos mais uma música dessa fase.
Existe outro disco que represente tão bem quanto a essência do Riot?
Essa é uma pergunta difícil, porque o Riot passou por inúmeras mudanças de formação ao longo da carreira. Praticamente cada álbum contou com uma combinação diferente de músicos. A banda começou com uma sonoridade mais voltada ao hard rock e, com Thundersteel, fez uma transição para o power metal.
Antes de entrar para o Riot, eu tocava na banda solo do Mark Reale enquanto ainda fazia parte do San Antonio Slayer, ao lado do Dave McClain, que mais tarde entrou para o Machine Head. O Mark ensaiava e compunha conosco e, naquela época, bandas como Iron Maiden e Judas Priest estavam definindo o que seria a New Wave of British Heavy Metal. Percebemos que o Riot precisava elevar o nível e seguir por uma direção mais pesada e poderosa. Foi assim que nasceu a identidade de Thundersteel.
Se eu tivesse de escolher os dois álbuns que melhor representam a banda, seriam Thundersteel e Fire Down Under. Claro que alguns fãs têm um carinho especial por discos como Nightbreaker (1993), mas esses dois continuam sendo os pilares do catálogo.
Eu já era fã do Riot antes de entrar na banda. Tinha Rock City (1977), Narita (1979) e Fire Down Under na coleção. Na verdade, eu e o Mark Reale éramos amigos muito antes de eu me tornar integrante do grupo. Cheguei até a ajudá-lo a ouvir fitas-demo quando ele procurava um substituto para Rhett Forrester. Mais tarde, quando Kip Leming deixou a banda, o Mark me ligou e acabei entrando para o Riot.
Entre os primeiros discos, Narita sempre foi o meu favorito. Músicas como “Road Racin’”, “49er” e “Kick Down the Walls” foram algumas das faixas que me fizeram me apaixonar pela banda.
Dito isso, a maioria dos fãs hoje se identifica mais com a fase power metal. A era Mike DiMeo rendeu ótimos discos, mas, quando o Mark reuniu novamente parte da formação de Thundersteel para gravar Immortal Soul, a reação foi imediata. Todo mundo dizia: “Isso soa como Thundersteel de novo”.
Essa resposta do público teve um peso enorme na minha decisão de manter a banda ativa depois da morte do Mark. Eu queria que o Riot V desse continuidade ao caminho musical iniciado em Thundersteel. É por isso que álbuns como Unleash the Fire (2014), Armor of Light (2018) e Mean Streets (2024) seguem essa mesma filosofia. Eu componho da mesma forma que compunha naquela época, e os fãs abraçaram muito bem esses discos.
No fim das contas, continuo acreditando que os dois álbuns fundamentais da história do Riot são Thundersteel e Fire Down Under. Curiosamente, o público americano costuma preferir Fire Down Under, por causa da sua pegada mais hard rock, enquanto os fãs europeus e sul-americanos tendem a se identificar muito mais com a sonoridade power metal consagrada em Thundersteel.
Mas, na minha opinião, Thundersteel é, sem dúvida, o álbum definitivo do Riot.
Você sente que os álbuns mais recentes da banda vêm recebendo o reconhecimento que merecem ou ainda existe uma tendência natural de os fãs olharem principalmente para o passado?
O Riot tem uma história muito longa, então é natural que as pessoas mantenham uma ligação muito forte com os discos clássicos. A banda foi um dos pilares da cena de heavy metal, e isso nunca vai mudar. Mas, desde a morte do Mark Reale, minha prioridade sempre foi preservar o espírito de Thundersteel. Nos últimos dias de vida dele, quando estava morando na minha casa, eu disse que pretendia manter a banda ativa. Ele me respondeu: “Continue fazendo do seu jeito, seguindo o caminho que construímos juntos.”
É por isso que continuo compondo com essa filosofia em mente. Em Mean Streets, por exemplo, procurei reunir diferentes fases da história do Riot. “Hell to the Warriors” é puro power metal, enquanto “Feel the Fire” tem uma pegada mais direta de heavy rock — muita gente até compara a música com “Grinder”, do Judas Priest. Também incluímos faixas que remetem ao clima de Narita, enquanto o Mike Flynt contribuiu com composições que lembram as fases de Tony Moore e Mike DiMeo. Já a faixa-título, “Mean Streets”, é a minha homenagem às origens do Riot nas ruas de Nova York.
Sinceramente, acho que recebemos mais reconhecimento do que imaginávamos. Quando o Mark faleceu, não sabíamos se os fãs aceitariam a continuidade da banda. Ficamos cerca de dois anos parados antes de tomar uma decisão, mas o pai dele nos deu sua bênção. Ele disse algo que nunca vou esquecer: “Mantenham viva a memória do meu filho. Não deixem a música dele morrer com ele.” Aquilo significou muito para nós.
Quando comecei a escrever as músicas de Unleash the Fire, o Mike gostou imediatamente da direção que estávamos seguindo. Depois encontramos Todd Michael Hall, cuja voz lembrava bastante a de Tony Moore, e trouxemos também Frankie Gilchriest. Lançamos o álbum, voltamos aos palcos e a reação foi fantástica. Os fãs abraçaram aquela formação desde o primeiro momento. Armor of Light foi recebido da mesma maneira, fizemos grandes festivais e, depois, gravamos Mean Streets exatamente com o mesmo lineup — algo inédito na história do Riot. Ao longo da carreira, a banda sempre mudou muito de integrantes, então conseguir registrar três álbuns consecutivos com a mesma formação foi um feito histórico para nós.
Também tivemos muita sorte por contar com o apoio das gravadoras. Primeiro a Nuclear Blast, depois a Atomic Fire e, mais recentemente, a Reigning Phoenix Music. Elas investiram na banda, financiaram videoclipes profissionais dirigidos por Tom Flynn, que já trabalhou com Buckcherry e Lamb of God, e isso nos deu a sensação de que estávamos no caminho certo.
Claro que, recentemente, sofremos um golpe inesperado quando Todd decidiu deixar a banda. Foi um choque. Ele já havia confirmado toda a agenda de 2026 — América Latina, Grécia, França, Reino Unido, enfim, tudo estava acertado. Então, de repente, ligou para dizer que não poderia mais continuar por questões familiares. Respeitamos completamente a decisão, mas isso nos colocou em uma situação muito complicada, porque os contratos já estavam assinados e os ingressos já estavam à venda.
Cancelar as apresentações nunca foi uma opção. O Riot sempre acreditou que a música vem em primeiro lugar, independentemente das mudanças de formação. O próprio Mark pensava assim: se alguém decidisse seguir outro caminho, você desejava boa sorte e encontrava alguém disposto a continuar.
Foi então que começamos a procurar um novo vocalista. Cogitamos Harry Conklin, que já havia passado pela banda, mas sentimos que precisávamos de alguém com uma abordagem vocal mais próxima da de Tony Moore e Todd. Também conversamos com Mark Boals, mas ele estava comprometido com outras turnês, e com Marc Lopes, que acabou concluindo que o repertório ficava alto demais para sua voz.
Então o Mike me lembrou de Valentino Francavilla, um cantor italiano que havia gravado por um selo japonês ligado ao nosso e que já tinha subido ao palco conosco certa vez. Pedi que ele gravasse vídeos cantando todo o nosso repertório. Assim que assistimos, percebemos que ele era o cara certo. Fizemos alguns ajustes, ensaiamos juntos e o levamos para a recente turnê europeia.
É claro que havia certa desconfiança no começo, mas a resposta foi excelente. Todos os nossos shows como atração principal esgotaram os ingressos, tocamos em três festivais e a recepção foi fantástica. O Valentino é fã do Riot desde criança — Thundersteel é o álbum favorito dele —, então já conhecia todas as músicas. Essa paixão ficou evidente em cima do palco.
O Riot já passou por muitas mudanças de formação e sempre encontrou uma maneira de seguir em frente. Isso faz parte da história da banda. Desejamos sinceramente tudo de melhor ao Todd e à família dele, mas, enquanto houver fãs querendo ouvir essas músicas, continuaremos honrando o legado de Mark Reale e mantendo o Riot vivo.
Ao compor material novo, você pensa conscientemente no que Mark Reale aprovaria ou acredita que a melhor forma de honrar seu legado seja simplesmente seguir em frente, sem esse tipo de filtro?
O Mark ainda me ajuda a escrever essas músicas. O espírito dele está sempre comigo.
Quando compúnhamos juntos, passávamos horas sentados com nossos violões e guitarras. A maior lição que ele me ensinou foi como escrever uma música realmente memorável. Antes de entrar para o Riot, quando eu tocava no S.A. Slayer, tudo girava em torno do peso; melodia não era prioridade. O Mark mudou completamente essa forma de pensar. Ele dizia que toda música precisava ter “uma melodia dentro da outra”. A linha vocal precisava funcionar por si só, e os solos de guitarra tinham que ser marcantes a ponto de as pessoas conseguirem cantá-los. Acho que é justamente por isso que tantas harmonias de guitarras e solos de Thundersteel continuam na memória dos fãs até hoje.
Quando escrevi a base de “Flight of the Warrior”, por exemplo, o Mark gostou imediatamente, mas disse: “Agora precisamos de algo que as pessoas consigam cantar”. Essa era a filosofia dele. Os riffs podiam ser pesados, mas as melodias tinham que ser inesquecíveis. É exatamente assim que continuo compondo.
Penso nisso toda vez que escrevo uma música. Faixas como “Victory” seguem essa mesma lógica: riffs fortes, mas acompanhados de melodias vocais que ficam na cabeça. O próprio Mark criava solos que pareciam músicas dentro da música. Você conseguia cantar os solos da mesma forma que cantava os vocais.
Sinceramente, sinto que ele ainda me guia. O túmulo dele fica a uns cinco minutos da minha casa, e de vez em quando vou até lá. Sento ao lado da lápide e digo: “Temos mais um álbum do Riot chegando, irmão. Queria que você estivesse aqui. Mande boas energias para nós”. Cheguei até a levar um dos nossos discos para fotografá-lo ao lado da lápide.
Eu amava aquele cara. Ele não está mais aqui fisicamente, mas continua sendo um dos meus maiores heróis. Ainda faço tudo isso por ele. Às vezes dizem que continuamos com o Riot apenas por dinheiro, mas isso não poderia estar mais longe da verdade. Ninguém está ficando rico com isso. Fazemos porque amamos essa música e porque queremos preservar o legado do Riot e de Mark Reale.
Existe alguma música do catálogo do Riot que você quase não consegue ouvir hoje porque desperta lembranças ou emoções muito fortes?
Existem várias.
Thundersteel sempre terá um significado especial para mim, porque foi o primeiro álbum do Riot do qual participei. Mas, antes mesmo dele, eu e o Mark já compúnhamos juntos no projeto solo dele, o Narita. Músicas como “Fight or Fall”, “Heavy Metal Machine”, “Gunfighter” e “Running from the Law” nasceram naquela época e só depois foram incorporadas ao repertório do Riot. Essas faixas significam muito para mim porque marcaram o início da nossa parceria como compositores.
Outra muito especial é “Sign of the Crimson Storm”. Nós a escrevemos ainda em 1982, quando entrei para a banda. É por isso que existem demos antigas com Rhett Forrester nos vocais. Essas músicas me trazem lembranças incríveis, porque foi um período em que eu estava ajudando o Mark a manter o Riot vivo em uma fase bastante complicada.
Entrar para o Riot foi uma honra imensa. Eu havia crescido como fã, comprando Rock City, Narita e Fire Down Under. De repente, estava dividindo o palco com Mark Reale, Rhett Forrester, Rick Ventura e Sandy Slavin, músicos que eu admirava muito antes de entrar para a banda.
Depois, claro, muita coisa aconteceu. Perdemos o Rhett, a formação mudou diversas vezes e passamos por momentos difíceis. Mesmo assim, Thundersteel sempre me faz lembrar do Mark da melhor maneira possível.
Curiosamente, as músicas que mais me emocionam hoje são justamente as dos primeiros discos do Riot. Nunca esqueço o dia em que ouvi “Warrior” e “Tokyo Rose” no rádio, fui correndo até uma loja de discos e pensei: “Que banda é essa?”. Foi assim que conheci o Riot — e, indiretamente, o próprio Mark.
Agora que ele não está mais entre nós, ouvir “Warrior” ou, principalmente, “This Is What I Get for Loving You” mexe muito comigo. Nunca tocamos essa última ao vivo porque ainda é difícil para mim escutá-la. Às vezes, durante um show, se você reparar, vai me ver desviar o olhar por alguns segundos. É porque os olhos enchem de lágrimas.
Todas as noites, antes de começar o show, entro no palco com uma dose de tequila. Brindo com o público, olho para o céu, faço uma saudação ao Mark e derramo um pouco da bebida no palco, porque, para mim, aquele palco ainda pertence a ele. É um ritual que nunca vou abandonar. Significa tudo para mim.
SERVIÇO – Riot V em São Paulo
- Data: 12 de julho de 2026 (domingo)
- Local: Manifesto
- Endereço: Rua Ramos Batista, 207 – Vila Olímpia, São Paulo, SP
- Abertura da casa: 18:00
- Classificação: 18 anos
- Ingressos: Clube do Ingresso
Por Marcelo Vieira

