Cavalo Vapor: a eterna potência do hard rock nacional
Um ano após a realização da primeira edição do festival Rock in Rio, ocorrida em janeiro de 1985, o cenário brasileiro do heavy metal e do rock em geral estava pulsando e o público via cada vez mais discos sendo lançados no mercado. Em meio a lançamentos de Alta Tensão, Astaroth, Azul Limão, Barão Vermelho, Camisa de Vênus, Capital Inicial, Celso Blues Boy, Centúrias, Cólera, Dorsal Atlântica, Engenheiros do Hawaii, Golpe de Estado, Inocentes, Inox, Ira!, Legião Urbana, Lobão, Mercenárias, Paralamas do Sucesso, Ratos de Porão, RPM, Sepultura, Smack, Taurus, Titãs, Vênus e Vulcano, além das coletâneas Warfare Noise (MG) e São Power (SP), surgiu o Cavalo Vapor.
Criada pelos irmãos Luiz Sacoman (guitarra) e Oscar Sacoman (baixo) no bairro da Pompeia, em São Paulo, lar de pioneiros como Mutantes, Tutti Frutti e Made in Brazil, a banda era completada por Joari F. Coimbra (vocal) e Sandro “Big Head” Oliveira (bateria). A formação foi oficializada em meados de 1987 com a entrada do tecladista Delfin Rolán Nuñez, colega do baixista Oscar na ECA (USP).
Com o estilo fincado no hard rock, o Cavalo Vapor tinha como influências nomes como Michael Schenker Group, Deep Purple e Rainbow. Individualmente, Luiz Sacoman vibrava com Gary Moore e Eddie Van Halen, enquanto a influência de Ian Gillan (Deep Purple) sempre norteou a escolha dos vocalistas, que cantam em regiões mais agudas, o que explica o fato de Luiz e Oscar serem responsáveis pelas composições, mas não assumirem os vocais.
A escolha do nome veio da ideia um amigo da banda que vinha de Curitiba (PR), o Guido, que sugeriu Horsepower. Porém, por escrever letras em português acabaram optando por Cavalo Vapor que, segundo Luiz Sacoman, remete a potência, força e vigor. “É um nome que tinha a ver com a ideia do estilo adotado. E a escolha por cantar em português é porque sempre víamos o Brasil como um vasto campo para trabalho, um país de dimensões continentais.”
Em meados de 1988, após apresentações em programas de TV, como Boca Livre (TV Cultura), apresentado pelo saudoso Kid Vinil, o vocalista Joari deixa a banda. Em seu lugar foi recrutado o talentoso Fernando Nova, que veio de São Bernardo do Campo (SP). A nova formação produz o videoclipe para a música “Sem Escalas”, que foi dirigido por Soninha Francine (MTV) e rodava em programas como Fúria Metal, apresentado por Gastão Moreira, e o Demo MTV, do VJ Daniel Benevides.
O passo seguinte foi a gravação do primeiro álbum, com produção do baterista Paulo Zinner, então no Golpe de Estado. “Paulo já era um grande amigo e pensamos que, com a experiência dele em gravações e a sintonia de gostos musicais conosco, traria um bom resultado”, revela Luiz Sacoman.
Com auxílio do engenheiro de som Flávio Decaroli Sani, as gravações do primeiro LP se iniciaram no Studio Mega, hoje Estúdio FM. Inicialmente, o disco seria gravado por Fernando Nova, mas em 1991 ele foi chamado pela banda Taffo. Em seu lugar veio Nando Fernandes, que havia iniciado carreira no Cédula Falsa e rodava o circuito de bares e casa noturnas com o Deep Purple Cover. “Nando era um fã da banda, então foi um processo natural”, destaca o guitarrista.
Com os instrumentais de oito das dez faixas do álbum já gravados, Nando Fernandes foi se adaptando até chegar o momento das gravações. No entanto, por motivos de agenda, Paulo Zinner teve que encerrar a produção após a gravação das oito faixas. “O estúdio Mega e o Flávio estavam sem agenda, por isso optamos por produzirmos nós mesmos as faixas ‘Não tente Fazer Isso em Casa’ e ‘Entre o Sim e o Não’ no Asas Estúdio, com Robson Koji. Nando Fernandes participou da finalização destas faixas, colaborando na composição”, explica Luiz.
Assim, o que era para ser um LP de vinil acabou se tornando um CD, pois permitiria as duas faixas adicionais. O tempo foi passando e o álbum, “Greatest Little Hits”, saiu apenas em 1997. “A banda nunca teve um selo, e por ser uma produção totalmente independente, esbarrou no orçamento para ser lançada. Tanto que o título foi uma brincadeira por ter demorado tanto tempo para ser lançado. Já era como um ‘O melhor de Cavalo Vapor’, como aqueles títulos dados a coletâneas na época”, descreve o guitarrista.
“Greatest Little Hits” trouxe participações especiais da saudosa cantora Sylvinha Araújo, esposa de Eduardo Araújo e que ficou muito famosa na fase da Jovem Guarda, em meados dos anos 1960; dos irmãos Andria e Ivan Busic (Dr. Sin) e a de Ian Gillan no solo de gaita em “Antes Só”. “Sylvinha Araújo era um ícone da voz feminina e fez sua participação de forma doce e incrível. Não ficou muito tempo no estúdio porque resolvia rápido, sempre sorridente e alto astral. Já Andria e Ivan eram meus amigos do colégio, Zuleika de Barros, na Pompeia. Sempre ia na casa deles porque gostávamos muito de uma fase do Michael Schenker Group. Chegamos a fazer uma jam uma vez tocando ‘On and On’ no apartamento deles na Santa Cecília. Eles fizeram os backings de refrão da ‘Sem Escalas’ e ‘O Rato e o Elefante Branco'”, relata Luiz.
Já a presença de Ian Gillan se deu por um convite de Nando Fernandes. Em carreira solo, promovendo o álbum “Toolbox” (1991), Gillan realizou duas datas em São Paulo, tocando no Olympia nos dias 5 e 6 de maio de 1992. Na realidade, Nando ficou de plantão no hotel Maksoud Plaza e conseguiu fazer o convite, dizendo que estava gravando seu primeiro álbum com a mesma idade que ele gravou o clássico “Machine Head”. Gillan olhou no relógio e falou: “Hoje, às 5 da tarde”. Ainda que um tanto cético, o vocalista deixou o estúdio de sobreaviso e pediu ajuda ao também vocalista Kiko Müller para que emprestasse o carro para levarem Gillan ao estúdio. E ele realmente foi e gravou a introdução de “Antes Só”, pois, por contrato, não poderia cantar.
Já a produção de guitarras teve a participação do experiente guitarrista e produtor Átila Ardanuy (Anjos da Noite), irmão de Edu Ardanuy. “Ele foi muito mais que um guitar tech. Com equipamento gentilmente cedido pelo amigo Marco Sérgio Bavini, era o equipamento que o Edu Ardanuy usou na época do Anjos da Noite. Então, ele dominava como ninguém, pois tinha um set idêntico com Mesa Boogie 290, Quad Preamp e caixas estilo flying case da Mesa Boogie com falantes Electro Voice”, detalha Luiz.
Pouco tempo depois do lançamento de “Greatest Little Hits”, a banda se separou. “Tivemos muitos contratempos com a saída do baterista pouco antes do lançamento do álbum e a de Nando na semana seguinte ao show de lançamento. Na época, sem Internet, era difícil encontrar um novo vocal, então desistimos depois de algum tempo. Hoje tudo seria diferente”, constata o guitarrista.
O retorno aos palcos se deu em 18 de agosto de 2006, com um show especial no Manifesto Bar, em São Paulo. Da formação clássica estavam Luiz Sacoman, Nando Fernandes, Sandro Big Head e Delfin Rolán Nuñez, além de Paulo Soza (baixo, Tempestt) e Marcos Peres (guitarra, Paradise Inc.). “Foi somente um revival pontual e sem a participação do meu irmão, Oscar, que se afastou da música para se dedicar à carreira de publicitário e dar aulas sobre o assunto em universidades”, conta Luiz. “Não tínhamos ideia se teríamos público, mas, no fim das contas, ficaram muitas pessoas de fora porque deu lotação máxima. Foi épico! Gravamos em vídeo, mas nunca liberamos o material porque não gostamos da qualidade da captação de áudio”, acrescenta.
Tempos depois, o grupo voltou ao Manifesto Bar, em show que marcou a reestreia de Fernando Nova. “Ele não queria mais cantar em uma banda de rock. Então, tudo se resumiu a uma apresentação na Expomusic e um show no Manifesto Bar”, justifica o guitarrista, que demonstra satisfação e alegria por ver a obra relançada pela Classic Metal na série Memórias Metálicas. “É uma honra saber quão valorizado é nosso álbum, quase 30 anos após seu lançamento. Ficamos muito felizes em poder remixar as faixas bônus e também de masterizar o álbum com recursos de três décadas adiante, mas mantendo a originalidade tanto sonora quanto gráfica”, conclui Sacoman, que prepara para o retorno com uma nova formação para poder escrever mais um capítulo desta história.

Faixa a faixa – por Luiz Sacoman
- SEM ESCALAS: “Eu tinha uns 17 quando a compus com meu irmão. O solo dela foi inspirado em uma introdução da vídeoaula de Steve Lukather (Toto) e é um dos meus favoritos do álbum. Confesso que a introdução de guitarra era inicialmente ideia do Delfin, mas peguei porque achei muito bonita a melodia. Já a letra é a mais comentada entre os fãs, então pedi para incluir nas costas da camiseta Cavalo Vapor 2024. Fala da importância de não ficar preso ao passado, mas também saber a hora que as tentativas se esgotam, virar a página quando não há mais o que fazer. Ela era a música que utilizávamos para fazer audições com vocalistas, na ocasião da saída do Joari e do Nova. Uma verdadeira prova de fogo para cantores. A inspiração para o refrão e em especial para os backings foi da música ‘I’m Gonna Make You Mine’, do Michael Schenker Group.”
- O RATO E O ELEFANTE BRANCO: “A letra diz: ‘Você me diz zero a esquerda… E ao meu lado nenhum avião japonês’. Curiosidade: Zero (Mitsubishi A6M Zero) é um avião caça da Marinha Imperial Japonesa na Segunda Guerra, numa alusão a um papo onde um fala algo e o outro se faz de desentendido, numa relação desgastada. O riff foi inspirado em Jake E. Lee, na ‘High Wire’ do Badlands. Já o solo tem um pouco Ritchie Blackmore na palhetada insistente do início, um pouco de Joe Satriani e Kee Marcelo na finalização com wah-wah, algumas das minhas inspirações em solos.”
- EPICENTRO: “Essa tem meu solo favorito no álbum. Com um momento inspirado em Warren DeMartini (Ratt), onde o solo modula. A letra compara uma mulher fria e imponente que nunca pensou que iria se apaixonar, a um edifício frio, que desaba com uma paixão avassaladora caracterizada por um terremoto – ‘A Oeste do seu peito’, em alusão ao coração. Adoro o arranjo de baixo e bateria, além dos backings e da estrutura atípica e assimétrica da música, que não se repete de forma previsível, apesar de ter um refrão super forte.”
- ANTES SÓ: “Uma letra de desamor, desapego e livramento. Esse solo eu não preparei, foi no improviso e totalmente sem edição, para ser coerente com a letra, nua e crua. O órgão estilo Hammond, assim como todas as outras onde o timbre Jon Lord aparece, foi gravado com uma caixa Leslie real. Foi uma aventura subir com uma caixa de mais de 100 quilos por uma estreita escada, mas o resultado valeu muito! Destaque para o final, onde a Leslie rodava a todo vapor, ao que o Nando canta a plenos pulmões: ‘Antes Só’.”
- CONVERSA: “Fala do prazer de uma boa conversa, entre amigos ou até mesmo um flerte. O solo dela é totalmente influenciado pelo meu amigo Edu Ardanuy, de quem eu aprendia muito em trocas de ideias e ensaios dele que frequentei muito na época dos Anjos da Noite. Essa foi a única vez na vida que usei um Harmonizer na guitarra. Ficou muito legal a dobra de guitarra, aliada a outro arranjo sensacional do Oscar e Sandro, que no Cavalo Vapor sempre foram um show à parte. Os dois passavam muito tempo dos ensaios fazendo a sincronização das acentuações. As músicas passaram por um processo longo de amadurecimento que transparece no repertório do álbum. Elas foram feitas sem pressa, tocadas ao vivo e ensaiadas incansavelmente. De fato, são incomparáveis com músicas feitas nos moldes de hoje em dia, onde músicos muitas vezes nunca se encontraram em um palco ou no mesmo ambiente, nunca suaram as paredes de um quarto, ou quase derrubaram um sobrado numa certa vilinha na Rua Caraíbas, no bairro da Pompeia. Bons tempos aqueles… Era muito mais fácil ser feliz.”
- AINDA PODE SER: “O Cavalo Vapor sempre se inspirou em fazer músicas complexas em divisões rítmicas, porém agradáveis a todos ouvintes, sem que a música pareça um código morse. A única banda que usou o código morse e deu certo foi o Rush em ‘YYZ’. Gostávamos de quebrar a cabeça até nos acostumarmos como nossa própria loucura rítmica. Tínhamos essa veia instrumental, mas sempre visando a canção, a composição em si. Preste atenção na mudança do riff nos instantes finais da música, pois vira um quebra-cabeças que se encaixa perfeitamente, apesar da complexidade. É uma música não convencional, que tem um clima épico na chamada do solo. Essa teve a participação do Joari na composição.”
- FERA SEM FARO: “Também da época do Joari, uma música de meados de 1987. O caçador ou caçadora se vendo desnorteado. Essa é a imagem que vem à cabeça com ‘Fera Sem Faro’. O dia que a caça vira caçador. Os riffs bem hard anos 80 são marcantes e até hoje quando vou timbrar a guitarra, toco esse riff. Essa música empolgava tanto, que tivemos que conter o Nando, que sobrava em alcance vocal (e sobra até hoje), mas no estúdio tínhamos que amansar nossas feras. O solo tem uma alavancada da corda Sol que eu sempre volto para ouvir novamente.”
- NÔMADE: “Essa balada acabou chamando uma interpretação incrível do Nando, que remete muito aos melhores momentos de Skid Row, com Sebastian Bach em sua melhor forma. Sonhávamos em tê-la em uma novela, mas nunca fomos pop a tal ponto. Ainda bem, porque sempre fizemos exatamente o que queríamos, sem a menor pretensão comercial ou diminuirmos a distorção ou reduzirmos solos para nos enquadrarmos.”
- NÃO TENTE FAZER ISSO EM CASA: “Uma música visceral, que teve a participação do Nando Fernandes na composição. O título é uma alusão a pessoas que se arriscavam em truques na TV e avisavam para as pessoas não tentarem em casa, por risco de ferimentos ou até de morte, mas a letra avisa dos riscos de entrar de cabeça em uma paixão avassaladora e, futuramente, causar arrependimentos irreversíveis, tatuados na alma. Éramos rockers da Pompeia, que na época jamais sairiam para dançar… Ouvir jazz? Nem pensar. Tatuar o nome da pessoa amada? Já sabemos no que pode dar… Pode dar muito certo, como pode ser a sua própria história, mas a brincadeira era essa: alertar um amigo do potencial risco de apostar tudo em uma paixão. Uma curiosidade técnica: esta faixa e a ‘Entre o Sim e o Não’ foram remixadas para este relançamento. As fitas de quase 30 anos tiveram que passar por um processo de recuperação, em um forno no Rio de Janeiro, foram transcritas para o digital no Rootsans em São Paulo pelo ganhador de quatro prêmios Grammy, Rodrigo Sanches, e remasterizadas pelo incrível Nando Vieira, do Family Music. Ouvir as gravações em detalhe, como um solo de gaita que o Nando fez na sessão, meio de brincadeira, foi um momento nostálgico e indescritível.”
- ENTRE O SIM E O NÃO: “Assim como a ‘Não tente fazer isso em casa’, esta faixa retrata um pouco do cenário musical da época, em que Soundgarden e Alice In Chains bombavam. A gente nunca quis seguir tendências, mas como bebemos direto na mesma fonte que inspirou as bandas de Seattle, como Black Sabbath, deixamos aflorar esse lado, em especial no riff e nos vocais mais agressivos. A letra faz um jogo de palavras entre opostos inusitados, como o Nu versus o Terno, Errado e Certo, Sepultura e João Gilberto, uma homenagem aos nossos amigos e maiores embaixadores do metal brasileiro para o mundo. A letra conclui que existe algo entre os opostos, exceto entre as opiniões de duas pessoas que jamais se entenderão. Não há meio termo para duas pessoas radicais, exemplifica a letra.”
Por Ricardo Batalha

