Entrevista: Robert Vigna explica o modus operandi do Immolation
Ainda faltam quatro meses, mas a expectativa para a turnê conjunta de Testament, Municipal Waste e Immolation pela América Latina já está no topo. O Brasil será contemplado com cinco datas: Curitiba (05/12), São Paulo (06/12), Limeira (08/12), Belo Horizonte (10/12) e, para a surpresa de muitos, o Rio de Janeiro (13/12).
Esta será a quinta passagem dos decanos do death metal pelo país. Embora a vinda anterior tenha sido recente, a nova turnê serve para promover o recém-lançado e aclamado Descent. Quem fala sobre o álbum — com a empolgação de uma criança que acabou de ganhar um brinquedo novo — é o guitarrista e fundador Robert Vigna.
Rock Brigade: Descent é o décimo segundo álbum de estúdio do Immolation, mas a banda continua soando inconfundivelmente como Immolation sem simplesmente repetir as fórmulas do passado. Como você equilibra a preservação da identidade da banda com a busca por novos caminhos como compositor?
Robert Vigna: Você precisa estar atento para não se repetir ou acabar soando como outra coisa. Isso fica mais difícil quanto mais músicas você escreve e mais álbuns lança. Felizmente, tento simplesmente compor coisas que soem legais. Quando termino uma ideia e mostro aos caras, conto com Ross [Dolan, baixista e vocalista] ou Alex [Bouks, guitarrista], que estão mais ligados ao material antigo, e com Steve [Shalaty, baterista], é claro. Se alguma coisa soar parecida com outra, eles são uma espécie de “polícia” nesse sentido.
No fim, você tenta fazer o melhor possível para criar algo interessante e parte daí. Não existe exatamente uma fórmula do tipo: “Agora vamos tentar isso ou aquilo”. É mais uma questão de ver o que conseguimos criar. Se algo soa legal, fazemos funcionar. Mesmo quando é um pouco diferente do que já fizemos, se achamos que pode ficar interessante, seguimos em frente.
Não fazemos questão de dizer: “Este disco vai soar assim”. Não funciona dessa maneira.
O título Descent sugere uma ideia de queda, enquanto músicas como “False Ascent” e “Bend Towards the Dark” parecem reforçar esse imaginário. O que essa “descida” representa dentro do conceito do álbum?
O conceito percorre todo o disco, mas principalmente a faixa-título, que o encerra. Ela observa tudo o que está acontecendo ao nosso redor, como sempre fazemos, refletindo sobre o mundo e trazendo à tona seu lado mais sombrio.
“Descent” fala sobre onde estamos hoje. Estamos começando a repetir coisas do passado que não deveríamos, mas também caminhando para territórios em que nunca estivemos antes. É uma maneira de perguntar: “O que estamos fazendo aqui?”. Hoje, parece que todos estão em lados opostos. Tudo se tornou extremo, entende? Menos diálogo, mais ódio, mais raiva. É um lugar completamente insano.
Já passamos por isso ao longo da história, mas parece que estamos repetindo situações que as pessoas deveriam ter percebido que nunca nos levaram a um lugar bom. Então, por que estamos fazendo tudo de novo?
Em poucas palavras, é disso que o álbum trata.
O Immolation sempre abordou temas como religião, poder, humanidade e os aspectos mais sombrios da existência, mas as letras da banda nunca soaram como declarações políticas ou religiosas diretas. Depois de mais de três décadas escrevendo dentro desse universo, onde você ainda encontra novas ideias para explorar?
Há muita coisa acontecendo por aí, então, nesse sentido, não faltam assuntos. Às vezes, a questão é decidir: “Que abordagem vamos usar? O que podemos fazer de um jeito diferente?”.
“The Ephemeral Curse”, por exemplo, aborda a humanidade de maneira geral, mostrando como somos pequenos. Passamos por tantas coisas, mas, diante do universo, não significamos nada. É basicamente disso que a música trata.
Você tenta abordar determinados temas por ângulos diferentes, mas há muitas ideias básicas e outras coisas sombrias por aí para servir de inspiração. Acredite.
Com a música, quanto mais você já fez, mais difícil fica. Mas Ross e eu sempre guardamos muitas ideias e conceitos: um título, uma palavra, uma frase ou algumas linhas que surgiram enquanto estamos escrevendo. Depois pensamos: “O que combina com qual música?” ou “Essa ideia é legal; esta música seria boa para isso”.
Então ficamos trocando ideias. Apesar de estressante, essa é uma das partes mais divertidas do processo de composição, porque a música — a parte difícil — já está pronta. As ideias e os temas que queremos explorar estão ali; basta conectá-los às músicas e escrever as letras.
Felizmente, as letras podem ser trabalhadas de última hora. Você pode simplesmente fazer um brainstorming e ter várias ideias de uma vez. Para mim, é mais fácil escrever letras do que compor música. A música é sempre um pouco mais difícil.
A linguagem das guitarras do Immolation sempre foi extraordinariamente pouco convencional, com intervalos dissonantes, movimentos harmônicos inesperados e riffs que muitas vezes parecem contrariar as estruturas tradicionais do death metal. Quando você compõe, encara a guitarra primeiro como fonte de melodia ou pensa principalmente em termos de atmosfera, tensão e movimento rítmico?
Normalmente, penso mais na atmosfera, no sentimento. Quando estou escrevendo riffs, não importa se são básicos, técnicos ou qualquer outra coisa. O que importa é que soem interessantes ou legais para mim.
Pode ser a coisa mais básica do mundo, mas, se soar bem, penso: “É simples, mas também é muito legal”. No computador, coloco uma bateria por baixo para ter uma ideia de como aquilo vai soar e depois deixo de lado. Faço o mesmo com outras partes até encontrar elementos que se conectem. Às vezes, surge uma parte que parece capaz de sustentar uma música; então tomo aquilo como ponto de partida e trabalho ao redor.
Para mim, tudo gira em torno do sentimento. Isso também vale para os solos. Nunca fui do tipo que pensa: “Preciso fazer um solo maluco aqui e mostrar serviço”. É mais uma questão de encontrar aquilo que combina com a música.
Muitas vezes faço solos mais rítmicos, que acompanham a base e conduzem a música até determinado ponto. Quando Alex e eu trabalhamos nos solos, ele pode seguir uma determinada abordagem e eu respondo de maneira diferente. Não é uma questão de “ele está fazendo algo maluco, então também preciso fazer algo maluco”. Se ele faz algo cheio de emoção, por exemplo, posso optar por algo mais contido — ou vice-versa. Assim, os solos acabam se complementando.
Para mim, é sempre uma questão de sentimento, seja na base, no solo ou em qualquer outro elemento.
“Adversary” foi a primeira música do álbum a ser lançada, e você também dirigiu o videoclipe. O conceito visual surgiu durante a composição ou foi a música que inspirou as imagens posteriormente?
Tínhamos a música primeiro, obviamente, e ela foi uma das primeiras para as quais escrevemos a letra. Por acaso, vi “Adversary” anotado em uma de nossas listas e pensei: “É uma música bastante agressiva. Acho que esse título combina com ela”. Então decidimos seguir por esse caminho e comecei a escrever.
Quando a música ficou pronta e começamos a pensar nos videoclipes, ela naturalmente surgiu como uma das opções. Já tínhamos algumas ideias de como poderíamos nos colocar em determinado cenário, então essa foi a direção que pensei para a música.
Na verdade, gravamos os três videoclipes no mesmo fim de semana, então precisávamos ter algum conceito em mente. Felizmente, a ideia para “Adversary” já estava definida, e consegui trabalhar a iluminação de acordo com ela. Para as outras duas músicas, usei iluminação e visuais diferentes, ainda sem saber exatamente o que faria com elas.
Durante as filmagens da banda, eu queria pelo menos três visuais distintos para poder criar três vídeos diferentes. No caso de “Adversary”, tínhamos a ideia do fogo e fomos desenvolvendo a partir daí.
Felizmente, funcionou. Normalmente, não faço algo tão específico: costumo trabalhar com determinados tipos de iluminação, mas não com um visual tão definido quanto aquele efeito de chamas. Então foi meio que uma aposta. Se não desse certo, teríamos que encontrar outra solução. Mas funcionou muito bem, e tudo acabou se encaixando no videoclipe.
Você também dirigiu os videoclipes de “Attrition” e “Bend Towards the Dark”. O que o trabalho com imagens acrescenta ao seu processo criativo, além da música?
É algo que fui descobrindo aos poucos. Trabalhei durante muitos anos em uma produtora no Brooklyn, em Nova York, onde, além de programar equipamentos de iluminação móvel e cuidar desse tipo de produção, também fazíamos alguns trabalhos pequenos de vídeo.
Depois, comecei a trabalhar com profissionais como Tommy Jones, que dirigiu nossos primeiros videoclipes para a Nuclear Blast, e fui observando como eles trabalhavam. Aos poucos, fui me envolvendo mais. Em determinado momento, Ross e eu estávamos trabalhando em um projeto chamado Gospel for the Witches, com Karen Crisis, da antiga Van Crisis. Ela e o marido tinham uma banda nova, Ross fez alguns vocais no primeiro disco e eu toquei guitarra ao vivo. Eles queriam fazer um videoclipe e já tinham algumas ideias.
Foi quando pensei: “Tudo bem, vou tentar”. Eu já tinha feito alguns trabalhos pequenos de vídeo para casamentos, eventos e coisas assim, então conhecia as ferramentas básicas. Fizemos o vídeo, e o resultado ficou razoavelmente bom.
A partir daí, quando Atonement (2017) foi lançado, comecei a trabalhar nos vídeos do Immolation.
É divertido. Na maior parte das vezes, fazemos tudo por conta própria. Às vezes contamos com a ajuda de alguns amigos, mas, em geral, somos nós que cuidamos de tudo. Costumo ter algumas ideias, mas muitas vezes simplesmente filmamos a banda e penso no restante depois.
É interessante porque, assim como acontece com a música, é divertido tentar criar algo visual a partir daquilo que você criou musicalmente. Sempre há coisas que eu gostaria de ter feito melhor, mas é um processo de aprendizado. Ao longo dos anos, fui evoluindo e aprendendo mais, embora ainda tenha muito a aprender, especialmente com toda a tecnologia nova que existe hoje. Tenho que correr um pouco atrás.
Tento me manter o mais atualizado possível. No fim, é sempre um processo de aprendizado, mas é um processo muito divertido.
Descent tem Zack Ohren como produtor, responsável também pela mixagem e masterização. O que vocês buscavam alcançar sonoricamente desta vez que talvez estivesse faltando nos discos anteriores?
Gostamos muito dos dois últimos discos. Acho que Atonement ficou muito bom. A partir dali, conseguimos chegar a um som mais orgânico, que funcionou muito bem. Também ficou um pouco mais sombrio. Acts of God (2022) foi igualmente muito bom, embora diferente de Atonement. Tinha uma sonoridade muito fria, que combinava com a música.
Enquanto isso, Zack Ohren foi ficando cada vez mais familiarizado com o nosso som ao longo dos anos.
Desta vez, gravamos de uma maneira completamente diferente. Normalmente, todos vamos para o mesmo estúdio e passamos um tempo juntos, trabalhando com Paul Orofino, com quem trabalhamos desde o terceiro disco. Só que ele havia transferido o estúdio para o Tennessee e, naquela época, todos nós também estávamos lidando com várias questões pessoais. Então não era viável nos reunirmos em um único lugar.
Tínhamos um cara daqui, Justin Passamonte, que tem um estúdio, e gravamos aqui as guitarras-base, os vocais e o baixo. Steve gravou a bateria perto de casa, em Ohio, com Noah Buchanan, do Mercenary Studios, com quem já estava familiarizado e se sentia confortável trabalhando. Ele gravava a bateria, nos enviava as faixas e nós trabalhávamos em cima delas. Eu também fui até a Virgínia para gravar alguns dos solos do Alex. Então tudo foi feito em lugares diferentes.
O resultado ficou muito bom. Mesmo sob pressão para terminar tudo, o processo foi mais tranquilo. Eu ia ao estúdio por algumas horas e depois voltava para casa. Não havia aquela sensação de “evento” que normalmente existe quando estamos todos reunidos em um estúdio. Desta vez era mais: “Vou gravar guitarras por três horas e depois volto para casa”. Foi tudo muito mais informal.
Eu estava usando um cabeçote EVH, que tinha um ótimo som, e fomos trabalhando de maneira bem simples, tocando em cima da bateria do Steve. No fim, tudo funcionou muito bem.
E o Zack fez um trabalho fenomenal. Tivemos pouco tempo e não ficamos incomodando muito; ele simplesmente fez o trabalho dele. Acho que é um dos discos com o som mais grandioso que já fizemos. É muito forte, poderoso e soa enorme.
Além disso, a música e a arte da capa, feita pelo Eliran Kantor, ficaram incríveis. Tudo acabou se encaixando, mesmo com o prazo apertado. O resultado ficou realmente muito bom, e estou extremamente satisfeito com o disco.
Um dos aspectos mais interessantes de Descent é a participação de Dan Lilker nos vocais de “Host” e da faixa-título. Por que vocês decidiram chamá-lo novamente e o que a presença dele acrescentou às músicas?
É uma coisa divertida que fazemos. Ele participou do disco anterior e acho que também fez alguma coisa em Atonement, embora não me lembre exatamente. No disco passado, ele colocou um vocal no final de uma das músicas. Acho que gravou pelo celular e disse: “Talvez vocês possam usar isso”. Ouvimos, colocamos em determinado trecho e pensamos: “Isso é legal. Pede para ele fazer uma versão mais longa”.
Então ele gravou novamente pelo celular e nos mandou. Funcionou, mas aquela participação era mais discreta do que as duas deste disco. Desta vez, elas ficaram mais presentes e podem ser ouvidas muito melhor.
Na faixa “Descent”, achei muito legal ele fazer um grito junto com o Ross no final. Foi uma maneira de acrescentar uma camada diferente, porque o Ross tem esse lado mais pesado, enquanto o Dan, além de ser uma lenda do thrash, também gosta muito de black metal e desse tipo de vocal. Ele queria experimentar essa abordagem, e eu disse: “Claro, manda ver”. Ficou animal.
Depois, o Ross teve a ideia de colocar o Dan em outro trecho de uma das músicas. Ele disse: “Seria legal o Dan fazer alguma coisa aqui também”. E eu respondi: “Claro, ótimo”.
Foram participações muito rápidas. Como estávamos em Rochester, ele simplesmente passou pelo estúdio com a esposa, Heather. Sentou diante do microfone, fez algumas tomadas e pronto.
Foi apenas uma coisa divertida de fazer, mas acrescentou uma espécie de “recheio para os ouvidos”, sabe? Uma pequena mudança que funciona bem em determinados momentos.
E ficou ótimo. Ele fez um trabalho excelente e acrescentou uma camada muito legal a algumas linhas vocais.
Olhando para a discografia da banda, você vê Descent como uma continuação do caminho iniciado por Acts of God ou como o começo de um novo capítulo para o Immolation?
Acho que ele simplesmente representa o momento em que estamos agora. Cada álbum é assim. Não vejo como o começo ou o fim de alguma coisa.
Diria que os três últimos discos — Atonement, Acts of God e Descent — estão de certa forma conectados. Os dois primeiros acabaram nos conduzindo até Descent. Depois de tantos anos compondo e viajando, acho que chegamos a um ponto em que encontramos o lugar em que precisamos estar como compositores.
Na minha opinião, as músicas foram ficando cada vez melhores e os álbuns, mais fortes. Para mim, isso é ótimo.
Agora vamos tentar levar tudo ao próximo nível no próximo disco. É sempre complicado começar a compor depois de um álbum como Atonement, que considerávamos muito bom e que muita gente também gostou. Depois veio o disco seguinte, e você pensa: “Tudo bem, e agora? O que vamos fazer?”. Porque você sempre quer, no mínimo, estar à altura do álbum anterior.
No fim, não há muito a fazer além de dar o seu melhor e torcer para que dê certo.
Dito isso, acho que Descent ficou excelente. É muito bom chegar ao décimo segundo disco e poder olhar para ele e dizer: “Uau, este é um disco muito bom”. Estamos adorando tocar essas músicas ao vivo e muito felizes em poder apresentar todas elas nos shows. É ótimo.
Depois de doze álbuns, incontáveis turnês e décadas atravessando mudanças no cenário do metal, o que ainda dá a você a sensação de que o Immolation tem algo genuinamente novo a dizer?
Acho que ainda existem muitas coisas que vemos acontecendo por aí. Alguém vai falar sobre elas, então por que não nós? Sempre haverá outras bandas e músicas novas abordando tudo o que está acontecendo. Nós simplesmente continuamos fazendo isso.
A cada disco, às vezes pensamos: “Não sei o que fazer agora”. Então terminamos um álbum como este e pensamos: “Uau, não teríamos essas nove músicas se não tivéssemos ido lá e feito o trabalho”. Isso é muito legal.
Fico especialmente feliz com este disco. Penso: “Uau, são músicas ótimas. É muito legal termos essas músicas agora”.
Sempre haverá algo a dizer. Sempre haverá alguma coisa acontecendo e aquele lado sombrio da humanidade continuará existindo. Muitas dessas coisas continuam se repetindo.
Então vamos continuar falando sobre esses temas a partir de ângulos diferentes, porque muitas das coisas que vemos por aí foram piorando ao longo dos anos. Essa é uma fonte constante de inspiração.
E existe também o amor pela música. No fim das contas, nós amamos música e amamos o que fazemos. Isso transforma tudo em algo positivo, mesmo quando falamos sobre assuntos sombrios.
Como banda, e também por meio dos fãs que vão aos nossos shows, acho que o resultado final é uma experiência unificadora e positiva para todos. No fim, é muito mais sobre união do que qualquer outra coisa.
Falamos sobre tudo o que está acontecendo e que acaba separando as pessoas, mas acho que isso também pode nos unir, porque compartilhamos as mesmas ideias.
Por Marcelo Vieira

