Entrevista: Tony Levin fala sobre o Beat no Brasil
O supergrupo Beat, formado por Adrian Belew, Tony Levin, Steve Vai e Danny Carey, desembarca no Brasil em 9 de maio (Espaço Unimed, SP/SP) para celebrar a fase mais acessível, ousada e, ao mesmo tempo, inovadora do King Crimson. Em entrevista à Rock Brigade, o lendário baixista Tony Levin compartilhou detalhes sobre a formação da banda, os desafios de revisitar os complexos arranjos da era Discipline (1981), Beat (1982) e Three of a Perfect Pair (1984), e a química desenvolvida ao longo dos mais de 60 shows que o quarteto já realizou desde agosto do ano passado.
Rock Brigade: Adrian comentou que trazer de volta a música do King Crimson dos anos 80 é um grande desafio. Quais foram as maiores dificuldades para montar esse show e soar como há quatro décadas?
Tony Levin: Boa pergunta. Para mim, nem foi tão difícil assim. O Adrian precisa cantar e ainda tocar partes de guitarra muito complexas. Eu sou “só” o baixista, e a maioria das minhas linhas não são tão complicadas. Teve uma ou outra que exigiu prática, claro. Mas o mais intenso — não diria difícil — foi quando nos reunimos. Mesmo conhecendo bem o material, a dinâmica muda, ainda mais quando todos são grandes músicos. Tivemos que nos dar tempo para ensaiar, testar interações, entender o que acontece se alguém improvisa ou erra. Era importante nos tornarmos uma banda de verdade, e não apenas quatro músicos tocando juntos. Esse foi o maior desafio. Mas em agosto do ano passado, ensaiamos por semanas e semanas, e desde então já fizemos 64 shows. Agora somos mesmo uma banda, sabemos o que estamos fazendo.
O que vocês buscaram resgatar nos shows ao revisitar a música do King Crimson dos anos 1980?
Tem muitos elementos. Embora essas músicas sejam dos anos 1980, elas não soam datadas. Eram radicais na época e ainda mantêm um frescor muito especial. É difícil descrever, mas cada músico faz algo incomum em seu instrumento. Quando quatro pessoas fazem isso, você torce para que o resultado seja algo bom — e, nesse caso, é algo realmente especial. Além disso, essas músicas são mais acessíveis do que as que o Crimson faria depois. Mesmo quem nunca ouviu a banda pode curtir a voz incrível do Adrian Belew e suas composições, que têm letras compreensíveis e envolventes. Eu, no baixo, uso várias técnicas e estilos diferentes — muitos deles criei naquela época. Também uso muito o Chapman Stick, um instrumento incomum com cordas de baixo e de guitarra. Ele é tocado com a técnica de hammer-on, o que dá um caráter bem percussivo. E às vezes toco partes de baixo e guitarra ao mesmo tempo, até em compassos diferentes — só mesmo o King Crimson para propor esse tipo de coisa!
Na sua opinião, qual é o instrumento mais difícil de tocar no King Crimson?
Depois de tantos anos, nem penso mais em termos de dificuldade. Toquei praticamente só baixo e stick a vida inteira. Também toco contrabaixo acústico, mas meu foco sempre foi o baixo. Então, não acho difícil tocar baixo. Na verdade, eu gosto de me desafiar. Sempre que tenho a chance de experimentar uma técnica nova ou tocar algo fora do comum, me animo. É esse tipo de desafio que me atrai na música.
Como você enxerga a evolução sonora do King Crimson nos três álbuns em que o show do Beat se baseia?
É interessante. Quando gravamos Discipline, nossa ideia era fazer algo radical, e conseguimos. Já em Beat, queríamos ir para outro caminho, nos distanciar do que tínhamos feito. Na prática, não conseguimos nos afastar tanto assim, na minha opinião. Mas tudo bem, porque o que criamos ficou bom.
Como funciona a dinâmica entre vocês quatro no Beat, misturando estilos e personalidades musicais diferentes?
Trabalhamos bastante os arranjos, discutindo se deveríamos estender partes para destacar algum músico, por exemplo. O Steve não apenas aprendeu as partes do Robert Fripp — ele criou variações que incorporam seu estilo próprio. E o Danny… bom, o Danny é o Danny! Ele sempre adiciona algo único, não importa o que esteja tocando.
Vocês pretendem tocar músicas de outros discos do King Crimson?
Ainda não fechamos o setlist final, mas na última parte da turnê tocamos também “Red”.
Você tem uma música favorita do King Crimson? Por quê?
Não costumo escolher — nem entre essas músicas, nem na vida em geral. Todas são excelentes e trazem desafios diferentes pra mim como baixista. Tento sempre tocá-las da melhor forma possível.
Existe algum plano de gravar um álbum de estúdio com o Beat?
Por enquanto, não. Mas nunca se sabe o que pode acontecer no futuro.
Em setembro de 2024, você lançou seu álbum solo Bringing It Down to the Bass, com vários músicos convidados. Pode nos contar mais sobre esse projeto?
Minha ideia foi destacar os diferentes baixos que uso. Incluí um encarte com fotos criativas e histórias sobre cada instrumento. Convidei vários amigos bateristas — um diferente em cada faixa. Depois de compor as músicas, pensei em qual baterista seria ideal para cada uma. O resultado tem muitas performances legais, não só nas linhas de baixo, mas também nas baterias.
Você participou de muitos projetos como músico de estúdio. Qual foi o mais estranho ou inusitado? Algum que as pessoas diriam: “Sério que o Tony tocou nisso?”
Já toquei em discos de estilos bem diversos. Talvez o mais inesperado sejam os álbuns de folk, como com a Judy Collins ou o Peter, Paul & Mary. Também participei de alguns discos de New Age — são poucas notas, mas ainda assim gosto muito.
Quais são seus planos para o futuro? Tem algum projeto novo a caminho?
Tenho turnês marcadas para o restante do ano. Também vou lançar mais vídeos do álbum Bringing It Down to the Bass e estou escrevendo um livro, com histórias e lições dos meus anos na estrada. Espero lançá-lo no ano que vem.
Qual mensagem você gostaria de deixar para o público brasileiro antes do show?
Vai ser um prazer enorme tocar para vocês. Espero que quem for ao show curta pelo menos metade do que nós curtimos estar no palco!
Texto: Marcelo Vieira

